Crítica: Dente por Dente - NoSet
Cinema

Crítica: Dente por Dente

Nos anos 1970 o cinema brasileiro nos brindou com verdadeiras obras-primas do cinema policial. Sim, o cinema policial à la brasileira nos apresentou clássicos, hoje infelizmente esquecidos, como Rainha Diaba (1974), o antológico Ódio (1977), o já clássico Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, a resposta sensacional com Eu Matei Lúcio Flávio (1979), com o nosso eterno cafajeste Jece Valadão, República dos Assassinos (1979), outro clássico a ser descoberto, além do bom Amor Bandido (1979). Era uma safra que lotava cinemas e usava o submundo da bandidagem brasileira, policias corruptos e truculentos, cenários barra pesada, violência, subúrbios abandonados, religiosidade e crime organizado, tudo com um realismo cru de um Brasil da época.

Nos 1980 e 1990 o gênero, com algumas exceções, foi um pouco deixado de lado, mas em 2002, com Cidade de Deus, um dos maiores filmes da história, o gênero ganhou fôlego e bilheteria, culminando com os mega sucessos de Tropa de Elite 1 e 2. São Paulo foi cenário de um grande filme do gênero, o excelente O Invasor (2002). Outros filmes surgiram, uns bons, outros fracos, e nessa semana será lançado mais um filme do gênero tendo São Paulo como pano de fundo. Falo de Dente por Dente com direção a quatro mãos por Júlio Taubkin e Pedro Arantes.

O filme começa com o estranho desaparecimento de Teixeira, sócio de uma empresa de segurança, prestadora de serviços para grandes construtoras. Ademar, seu sócio, tenta descobrir, contando às vezes com a ajuda da esposa de Teixeira, Joana, o porquê do seu sumiço e acaba descobrindo uma complexa trama que envolve dinheiro, desapropriações, vingança, dentes, especulação imobiliária, estranhas mortes e que fazem Ademar ter estranhos e sinistros pesadelos.

Infelizmente Dente por Dente é uma grande decepção. A quadrada e clichê direção da dupla de diretores nos apresenta um filme insosso, que às vezes pretende ser pretensioso, desperdiçando uma história que poderia render um grande filme, mas pontuado por um roteiro com uma trama confusa e muito mal explorada, com pouco vigor e um fraco encadeamento narrativo. Juliano Cazarré até que tenta dar vida a um atormentado Ademar, personagem sufocado por um grande mistério, mas sua atuação não passa de regular e a narração em off repleta de frases existenciais de botequim fazem o filme perder o ritmo e transformar os curtos 85 minutos em um filme interminável. Paola Oliveira pouco brilha como a esposa do sumido Teixeira, dando a impressão que se tirássemos a personagem pouco mudaria a trama e sua atuação em piloto automático nada acrescenta ao filme. Renata Sorrah também tem uma ponta mal aproveitada no filme, desperdiçando talento em uma história confusa e fraca. A trilha sonora é assinada pelo sul-coreano Mowg. Sobre ela podemos dizer que tem momentos bem executados, dá um certo grau de suspense sem exagerar, mas em outras soa modorrenta, beirando o insuportável. Enfim, pra não dizer que não tem méritos no filme a fotografia é quase o personagem principal da película. O talentoso Bruno Tiezzi consegue com suas câmeras captar toda a imensidão cinza e espelhada dos arranha-céus da capital paulista, dando um ar melancólico à cidade, além de tomadas noturnas muito bem realizadas, às vezes ajudadas pela trilha do já citado Mowg. Um belo trabalho visual, pena que o roteiro não combinou com a imagem.

Dente por Dente é um clichê sombrio, tenta dar um ar sobrenatural utilizando os pesadelos de Ademar (só que sem um Freddy Krueger) com perseguições, dentes e picaretas. Com uma mistura de histórias de desapropriação, movimentos de ocupação urbana, estranhos desaparecimentos, grandes construtoras, violência extremamente mal amarrada e decepcionante, conta com atuações burocráticas, uma entediante narração em off e tendo méritos apenas a ótima fotografia com São Paulo e sua selva de pedra e gigantes espelhados além de vielas e becos pouco convidativos. Um desperdício de história que, se fosse inspirada nos grandes clássicos do gênero policial brasileiro, talvez a Encruzilhada, ocupação tão citada no filme, fosse sim uma de despacho, honrando as tradições do melhor do nosso cinema.

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