Crítica | Adoráveis Mulheres - NoSet
Cinema

Crítica | Adoráveis Mulheres

Há 152 anos um clássico da literatura norte-americana era lançado: Little Women (Mulherzinhas ou Adoráveis Mulheres). Louisa May Scott escreveu o livro sob encomenda a pedido de seu editor, utilizando um tom autobiográfico, mesclando drama e romance, a escritora ficou surpresa que sua singela história fizesse tanto sucesso. Sucesso que gerou três livros continuações, Esposas Exemplares (The good wifes) Little Men e Jo Boys. A história das irmãs March: Jo, Meg, Beth e Amy como não poderia deixar de ser gerou diversas adaptações para o cinema. Em 1933 tivemos uma adaptação famosa dirigida por George Cukor, As quatro irmãs ou Às Mulherzinhas (Little Women), que foi um grande sucesso e teve Katherine Hepburn em início de carreira como Jo March, e já desde cedo roubou o filme para si tamanha atuação. Em 1949 tivemos Quatro Destinos (Little Women) dirigida por Mervin Le Roy tendo June Allyson como a decidida Jo Marsh e Elisabeth Taylor como Amy. O filme apesar de diferenças da obra original também funciona bem. Em 1994 tivemos a versão de Gillian Armstrong, Adoráveis Mulheres (Little Women) dessa vez com Winona Ryder como Josephine March, o que rendeu uma indicação ao Oscar para a atriz. Elenco ainda contava com Claire Danes e uma jovem Kirsten Dunst. Fez um relativo sucesso na época, um belo e premiado filme. Em 2019 chega a vez de mais uma adaptação ao cinema do clássico de Louisa M Scott, dessa vez dirigida pela promissora Greta Gerwin (de Lady Bird,2017) Adoráveis Mulheres (Little Women).

O filme conta uma fase da vida das irmãs March. Na época da guerra civil norte-americana as quatro irmãs, Jo, Meg, Beth e Amy amadurecem em um ambiente bélico, na espera do pai, um combatente nortista no front, sempre tutelados pela carinhosa mãe Marmee. As quatro tem personalidades bem fortes e diferentes, mas como grata semelhança todas tem grande talento para as artes. Enquanto Jo é uma promissora escritora, Beth tem talento para música, Amy é uma ótima pintora e Meg tem uma veia para brilhar nos palcos. Compõem ainda o universo delas, Tia March, solteirona, ranzinza e endinheirada que vive a dar conselhos pessimistas e machistas para as sobrinhas e o rico e doce vizinho Laurie sempre disposto a ajudar as irmãs.

Em mais uma adaptação ao cinema do centenário clássico As Mulherzinhas, a atriz e hoje diretora Greta Gerwin consegue transpor para as telas com seu próprio roteiro adaptado do livro, uma maneira bela, criativa e deliciosa de contar uma tradicional história. Usando metalinguística, idas e vindas na cronologia que funcionam pela bela edição (de Nick Houy) que consegue amarrar a narrativa de forma consistente causando encanto ao espectador. Trilha sonora belíssima de Alexandre Desplat em forma com a edição e fotografia do filme, Fotografia a cargo de Yorick Saux, abusando de belas e primorosas tomadas tendo como apoio as belas paisagens naturais do norte americano ora colorido por uma primavera e verão, ora coberto por neve de um sombrio e rígido inverno. Direção de arte também é um primor, belíssima reconstituição da América na era da guerra civil e figurinos impecáveis.

O espetacular elenco também faz o filme ganhar outro patamar. Desde Meryl Streep como a ranzinza Tia March, contida, mas sempre notável a grande Laura Dern como a mamãe Marmme firme como uma rocha protetora das filhas. Timothée Chalamet como o sensível e prestativo Laurie também está em grande forma. Mas as quatro irmãs funcionam de uma maneira cativante, as quatro atrizes fecharam muito bem para o papel. Emma Watson a mais discreta como a sonhadora e tradicional Meg ;Eliza Scanien também passa toda a doçura e inocência de Beth mas ambas são ofuscadas por Florence Pugh como a mimada e ciumenta Amy sempre em eterno conflito com Jo, alias um belo embate de atuações entre Pugh e Saiorse Ronan, que interpreta de uma maneira leve e com ares de veterana uma Jo March forte, ambiciosa, uma mulher à frente do seu tempo, mas que pode largar tudo que sonha em troca da harmonia familiar dos March.

Adoráveis Mulheres é um filme sobre crescimento, descobertas, sonhos e conflitos, mas tudo pontuado por uma grande e rochosa união familiar. Tudo pode conspirar contra as March, suas cabeças extremamente opostas, egos inflamados, ciúmes, escolhas de vida diferentes, tragédias familiares, mas nada abala o que elas mais têm de valor que é o amor e química que as unem.

Posso garantir que é a melhor adaptação do livro para o cinema, cada uma foi importante no seu tempo com suas qualidades é claro, mas Greta Gerwin e o seu filme consegue superar as outras com uma química parecida com as irmãs March, fazendo uma perfeita junção de tudo que uma boa obra precisa: uma segura direção, atuações marcantes, um roteiro afiado, fotografia e música que são um deleite para os olhos e ouvidos e o principal: consegue cativar. Um dos grandes filmes de 2019.

Sinopse: A diretora e roteirista Greta Gerwig (Lady Bird – A Hora de Voar) costurou seu filme Adoráveis Mulheres usando como base o romance clássico e também os escritos de Louisa May Alcott; e criou uma história que se desenrola enquanto o alter ego da autora, Jo March, relembra fatos do passado e do presente de sua vida fictícia. Na visão de Gerwig, a amada história das irmãs March – quatro jovens mulheres, cada uma determinada a viver a vida em seus próprios termos – é uma história clássica e ao mesmo tempo muito atual.

Elenco: Florence Pugh, Timothée Chalamet, Emma Watson, Saoirse Ronan, Meryl Streep, Laura Dern, Eliza Scanlen, James Norton, Bob Odenkirk, Louis Garrel, Tracy Letts

Roteiro: Sarah Polley, Greta Gerwig

Direção: Greta Gerwig

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