Brightburn: versão psicopata do Superman surpreende pelo impacto visual. - NoSet
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Brightburn: versão psicopata do Superman surpreende pelo impacto visual.

O início da trama é uma cópia (escancarada) da origem do Superman, excetuando-se a parte onde os pais do Kal-El são mostrados. O casal sem filhos que é “abençoado” pela chegada de uma nave com um bebê. As cenas seguintes mostram o desenvolvimento normal da criança até sua fase jovem, com aproximadamente 13 anos (A idade do garoto é comprovada por notícias sobre a queda de meteoros na cidadezinha de Brightburn). Essa é a fase em que seus poderes surgem, mas há algo mais sombrio por trás de suas habilidades, algo capaz de tirá-lo de “sintonia” e pô-lo em um transe no qual se torna extremamente violento.

Nota: o adolescente que ganha poderes é uma referência clara à história do Cristo bíblico, cuja infância é um mistério (ou foi descartada por não apresentar nada pertinente). O mesmo acontece com Clark Kent nos quadrinhos.

E tenham atenção! A partir daqui há pequenos SPOILERS!!!

A manifestação gradual dos poderes de Brandon Bryer (Jackson A. Dunn) está bem apresentada. A força, sua obsessão por garotas e órgãos humanos, o medo que ele provoca em animais… tudo mostrado com boa qualidade. Essa nova face do menino Brandon incomoda seus pais Tori (Elizabeth Banks) e Kyle (David Denman), porém nenhum deles percebe que há algo além da simples puberdade. Na verdade, eles tentam esconder de si mesmos a verdade por trás desse alienígena que eles adotaram como filho. Qual o potencial do garoto? Até onde ele pode ir e qual sua função em nosso planeta são incógnitas que marcam suas vidas, principalmente pela demora na manifestação dos poderes de Brandon.

A violência nos atos do garoto ganham forma e impacto. Ele machuca pessoas, mata animais e não sente remorso por isso. Como dito no início, o paralelo estabelecido entre essa personagem e o Superman é claro, mas Brandon é um sociopata muito parecido com o General Zod, incapaz de sentir compaixão mesmo diante dos piores atos. E isso ganha ainda mais impacto conforme o longa-metragem progride.

Após o contato final entre Brandon e a nave, um novo garoto surge. Ele tem poderes inimagináveis e não há pena ou remorso neste garoto que o impeçam de tomar, literalmente tomar, aquilo que quer. Nesse ponto, o diretor David Yarovesky busca destacar que ele ganha finalmente o poder necessário para descontar, punir aqueles que o atormentam. Essa parte do filme faz um paralelo com vários casos de assassinos que voltam a uma escola, igreja ou outro local qualquer para castigar aqueles que foram cruéis com eles. No caso dos assassinos, a arma de fogo, a faca, a gasolina e qualquer outra arma ou potencial arma são usadas em conjunto com o medo para devolver os tempos de covardia a que foram submetidos. Brandon Bryer é um desses assassinos que sempre esteve à margem, relegado ao desprezo de seus pares e, por isso, se acha no direito de matar.

Um dos pontos previsíveis do filme está justamente na ligação com o Superman. Afinal, um ser de outro mundo dotado de poderes quase infinitos tem que ter um ponto fraco e, como já disse, até mesmo o Homem de Aço tem algo capaz de pará-lo.

As cenas de violência são moderadas. A partir de certo ponto elas passam a incomodar pela forma explícita como são apresentada, ainda que nada seja realmente uma novidade em tempos de violência real na TV e internet.

Um ponto curioso do roteiro está na adequação dos nomes da cidade e do garoto aos heróis e personagem dos quadrinhos mais conhecidos, cujas iniciais são duplicadas como: Bruce Banner, Matt Murdock, Reed Richards, Sue Storm, Lois Lane, Lex Luthor, Guy Gardner, Peter Paker, Wally West e outros. O nome da cidade é Brightburn (que pode ser traduzida de forma literal como “brilho que queima”), enquanto o garoto se chama Brandon Breyer. Boa sacada.

No mais, o que o espectador pode esperar é um massacre, já que essa versão bizarra do Superman não tem inimigos capazes de detê-lo. É um predador enlouquecido e sem outro predador de igual poder para intimidar ou confrontar. O ciclo da vida está irremediavelmente desfeito, fato comprovado nas cenas durante os créditos.

Atuações.

A presença do jovem ator Jackson A. Dunn como o psicopata Brandon foi uma escolha acertada. O garoto consegue mostrar uma apatia própria de quem se considera superior. Seu descaso pela vida é um traço de comportamento característico dos assassinos, principalmente os que não têm qualquer padrão moral.

Os pais de Brandon, Tori e Kyle, são mostrados como pais normais, mas que não compreendem a realidade por trás dessa “adoção”. Tal como quem cria uma serpente e que espera jamais ser picado e envenenado, eles creem piamente na incapacidade para o mal do garoto. As atuações de Elizabeth Banks e David Denman são boas, porém ficou claro que o roteiro exigiu muito mais da atriz.

Os demais integrantes do filme são apresentados com um tempo de tela relativamente baixo, exceção para a atriz Emmie Hunter, uma amiga de escola de Brandon e um amor não correspondido. Emmie é Caitlyn e mostra uma atuação consistente.

Originalidade.

Verdade seja dita, Brightburn não é um achado quando o tema é originalidade. Poder sem limites, X-Men, Hancock, entre outros, mostram o quanto o poder pode deturpar a noção de certo e errado de uma pessoa. Isso é mostrado o tempo inteiro no longa (e com competência), mas não há uma “novidade” no ponto focal da trama.

Já a transformação de um menino bom em uma criatura incontrolável e puramente maligna, isso também não é original, o que não tira o mérito dos roteiristas em ver aquilo que ninguém enxergou antes. Brian e Mac Gunn (respectivamente irmão e primo de James Gunn, o produtor do filme) nos entregam um roteiro cru, cruel e cuja principal função é poupar o espectador do óbvio, ainda que uma versão sombria de um ser poderoso não é incomum.

Um ponto interessante foi usar a manipulação de Brandon para desviar de si a culpa pelos crimes. O alienígena tem um grande poder de persuasão e é um mentiroso do nível de Grima Língua de Cobra, mas sua principal característica é pôr seus desejos e planos acima da vida de qualquer um. Ele é tão frio e maligno quanto o jovem Demian do filme A Profecia (The Omen), de 1976.

Adoção.

Acreditem, o tema da adoção é um dos pontos mais interessantes de Brightburn que mostra o lado bom desse ato de amor (enquanto o garoto estava normal) e o lado ruim que é aquele no qual Brandon passa a agir de forma estranha ao descobrir seus poderes (uma alusão às mudanças na adolescência).

Obviamente que a adoção na vida real é um gesto de amor e respeito ao próximo, uma atitude que determinará o futuro de uma criança ou adolescente. Mas no longa fica claro que o pai sempre temeu o pior por conta do origem desconhecida do menino, uma preocupação que, infelizmente, também impede muitos pais e mães em potencial de adotarem crianças.

Gore.

Há cenas que simplesmente chocam pelo apelo visual, a força ao mostrar os resultados de um monstro impiedoso à solta. Em suma, recomenda-se cautela por parte das pessoas que são mais sensíveis à violência e sangue explícitos. Deixo bem claro que isso não é um demérito para a obra, pois as cenas são necessárias e, em alguns casos, suavizadas pelo jogo de luz ou foco distante.

E cá para nós… O que vocês esperavam de um filme sobre um assassino psicopata superpoderoso? Redenção e amor? Jamais!

Citações a outros heróis também estão presentes no final do filme. Assim como Brandon é uma versão negativa do Superman, dois outros alienígenas poderosos são citados: um deles é um homem que vive no mar (Aquaman?) e uma mulher que sufoca suas vítimas com uma corda (Mulher-Maravilha?). Os roteiristas aparentemente têm o desejo de uma sequência para Brightburn, o que pode ser a justificativa para esses novos seres, além de uma forma natural de controlar Brandon (ou até eliminá-lo), pois esses monstros podem vir a lutar entre si pelo poder e o domínio de nosso mundo.

Li algumas críticas exageradas sobre o filme e até concordo que o recurso da supervelocidade foi usado com exagero, mas a minha conclusão é que o longa é bom e pode trazer um futuro promissor à franquia caso opte por ir ainda mais fundo na sociopatia dos alienígenas e explore ainda mais esse desprezo pela vida. Como dito acima, o confronto entre os invasores alienígenas pode dar ainda mais impacto às histórias e, certamente, agradará os fãs que curtem quadrinhos.

 

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