Bacurau: o cinema brasileiro ganha em qualidade e roteiro nesse filme surpreendente. - NoSet
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Bacurau: o cinema brasileiro ganha em qualidade e roteiro nesse filme surpreendente.

Verdade seja dita, o cinema nacional ainda paga por seu passado mais debochado e pornográfico. A fama de cinema apelativo permeia obras de grande porte que, infelizmente, pagam por um passado cinematográfico que não mais condiz com a realidade atual. Sendo assim, a resistência do público às produções nacionais ainda persiste, mesmo diante de grande obras produzidas ao longo dos anos 90 e, principalmente, a partir do século XXI.

Mas a história do cinema brasileiro mais recente é algo que cada um deve pesquisar e se aprofundar. O assunto de hoje é o excelente filme “Bacurau”, obra dirigida e roteirizada pela dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Bacurau certamente veio para evidenciar o potencial de nosso cinema.

A história.

O começo do longa nos mostra Teresa (Bárbara Colen), uma mulher que retorna ao lar para se despedir de sua avó. Teresa é uma mulher forte, nascida em Bacurau – uma cidadezinha, quase um vilarejo, no interior do nordeste brasileiro. Ela tem um vínculo forte com seu povo e isso está expresso na receptividade dele.

Apesar da ocasião triste, Teresa sabe que não poderia se furtar dessa despedida. Toda a cidade está pronta para acompanhar até a última morada sua mais ilustre filha (Lia de Itamaracá), cuja falta parece abalar em especial sua mais velha amiga, Domingas (Sônia Braga). Domingas surge bêbada, instável e possessa, cena que impacta o espectador logo de início, já que se trata de uma figura icônica de nosso cinema que foi, inclusive, sex symbol.

Um cortejo parte para o enterro e nós, espectadores, nos deparamos com uma realidade infinitamente distante daquela existente nas grandes cidades. Bacurau é um povoado onde todos se conhecem, se respeitam e se ajudam. Eles são nordestinos e têm orgulho disso. Em Bacurau a vida dos outros é deixada de lado, pois todo o tempo que existe é para prover o próprio sustento e sobrevivência. É um povo duro, forte e unido como somente os habitantes da “roça” ou de locações esquecidas por quem deveria protegê-los podem ser.

Bem, em um lugar tão desolado, o correto seria findar a história após o enterro da ilustre habitante, porém a paz desse povoado está perto do fim. Além de forasteiros que vagam pelas terras de Bacurau, um prefeito corrupto que desdenha da união do povo e de objetos voadores nas redondezas, mortes começam a acontecer. O que há por trás desses fatos e fenômenos? Só o desenrolar da trama dirá a verdade sobre tanta coisa diferente em tão pouco tempo.

Um lugar fora do mapa.

O povo de Bacurau não é um agrupamento alienado da tecnologia. Eles podem não ter acesso a tudo que um indivíduo da cidade ou com melhor condição de vida tenha, mas eles sabem que esses avanços existem. Entretanto, o povoado é humilde e vive alheio a essas melhorias que a tecnologia traz. Com um senso de unidade incomum, todos convivem e sobrevivem através de cooperação, escambo e de uma proximidade quase familiar. Eles suportam os erros e manias uns dos outros, pois entre eles não há julgamentos, apenas aceitação. Isso é assim em prol da sobrevivência do grupo que, obviamente, é muito mais forte unido.

E mesmo diante desse quadro de pobreza e humildade extremas, todos na cidadezinha são orgulhosos de serem frutos daquela terra. Esse orgulho, inclusive, está destacado no museu da cidade que armazena as memórias e o passado dos que fizeram parte de Bacurau.

Dentro de sua função social, cada cidadão é respeitado. Até mesmo as prostitutas têm um papel e há quem delas dependa. Sendo assim, em uma política de boa vizinhança, coisas que seriam chocantes dentro da dita “civilização” são vistas como normais na longínqua terra nordestina.

Todavia, como já dito, a chegada dos forasteiros causa um incômodo grande ao povo. Isso amplia quando os mesmos dizem que acharam o vilarejo por acaso, já que Bacurau não está no GPS. Essa afirmativa é recebida com desconfiança pelos homens e mulheres de lá, já que eles sabem que o lugar existe tanto em mapas físicos quanto digitais. Ao menos assim pensavam…

Orgulho e Preconceito.

O roteiro é uma forte crítica ao descaso e ao desprezo dedicados aos povos nordestinos. Apesar da aparente simplicidade, o povo de Bacurau é digno, reto e orgulhoso. Eles têm um código moral que evita a segregação e os preconceitos, pois nada é fácil para sobreviver em um lugar tão ermo. Diante das dificuldades, resta a esse povo sofrido apenas a união como forma de evitar o sumiço deles. E eles são realmente unidos, principalmente diante de um filho da terra que os traiu, o político e manipulador Tony Jr. (Thardelly Lima) que se elegeu uma primeira vez às custas de promessas e mentiras, cujo maior feito é o de não conseguir fazer a água chegar ao povoado. Tony é tão covarde que às vésperas de uma nova eleição, presenteia os conterrâneos com centenas de livros velhos, remédios vencidos e um pouco de comida. Ele é a representação do “coronel” que era eleito e reeleito através do voto de cabresto.

Os diretores afirmam que o longa é uma crítica a algumas ações políticas adotadas pelos atuais governos dos EUA e do Brasil. Isso fica claro quando alguns estrangeiros (notadamente norte-americanos) chegam às redondezas de Bacurau em busca de diversão, mas uma diversão extremamente incorreta e cruel. Os americanos são mostrados como amantes das armas e dos estragos que estas podem fazer. Outro ponto está na citação do abandono dos políticos ao povo nordestino.

Apesar de tais apontamentos, cabe ressaltar que o abandono do nordeste brasileiro é algo vivido há décadas e um fator de revolta na região, em especial as localidades onde a seca atinge. Até o presente momento, até mesmo os políticos que são nordestinos exploraram e exploram seu próprio povo. Quanto à política armamentista de Trump e Bolsonaro, criticada de forma explícita no longa, vale relembrar que o próprio nordeste brasileiro foi recordista de assassinatos no ano de 2014, detendo um percentual de 32,8% do total no país, de acordo com o mapa da violência de 2016. Uso esses dados para frisar que há muito ainda a ser corrigido pelo atual governo, o que não impede que enxerguemos seus avanços e décadas de erros e corrupção que o impedem de ir ainda mais adiante.

Seja como for, a crítica está muito bem aplicada na trama e é fruto direto de uma realidade à qual a maioria dos nordestinos está sujeita: o descaso de seus próprios governantes, eleitos para agir em prol do povo, e que preferem legislar em causa própria.

Citações e linguagem cinematográfica.

Bacurau é um verdadeiro amálgama de linguagens e citações. O início do filme já remete às introduções da série Star Wars ao situar o povoado em uma determinada região do Brasil através da visão do espaço. Temos também a passagem de cenas através da transição “Wipe”, recurso usado em filmes de George Lucas e produções japonesas de Akira Kurosawa.

A linguagem dos westerns clássicos é outra ferramenta muito utilizada no longa, principalmente no terceiro ato. Há claras homenagens às obras de Sérgio Leone e seu western spaghetti.

A presença do Cangaço.

O mais famoso cangaceiro do nordeste foi Lampião. Lendas (boas ou más) sobre seus atos estão espalhadas em toda a cultura nordestina. Bacurau é um filme sobre o nordeste e, certamente, não poderia deixar essa peculiar parte da história desse povo de fora. Ainda que seja ambientando alguns anos à frente do nosso tempo atual, a força do cangaço está presente… de uma forma que vocês jamais imaginarão.

A presença desses elementos que dividiram a opinião popular (uns os consideravam bandidos, outros os viam como justiceiros) não está totalmente extinta. Algumas regiões do nordeste ainda apresentam um fenômeno chamado de “o novo cangaço”, onde os meliantes atacam primeiramente unidades policiais para depois roubar bancos e caixas eletrônicos.

Mesmo que ainda exista o debate sobre a importância do cangaço ou sua validade, o fato é que ele é parte importantíssima da história desse povo e, felizmente, foi retratada com absoluta maestria no filme. O final é de uma beleza que choca pela violência gráfica, justificada pelo contexto do roteiro.

A presença estrangeira.

Já abordei uma parte dessa inesperada presença no filme. Bacurau inclui homens e mulheres norte-americanos em nosso território para que esses saciem sua sede por mortes. Equipados com fuzis e outros armamentos pesados, eles demonstram um desapego que provoca raiva na plateia. Há um desprezo por nosso povo em cada um de seus gestos e palavras. Eles não se importam sequer em estar num país estrangeiro e não falarem uma única palavra do idioma local, o que denota a sensação de superioridade presente neles. Isso sem falar na impunidade diante de uma violência digna de ambientes de guerra com Síria e Afeganistão, onde nem crianças são perdoadas.

A história nos conduz com muita eficiência e provoca em nosso âmago a sensação de desprezo por eles. Chega a um ponto em que desejamos que eles tenham uma morte lenta e plena de dor.

Os americanos são representações estereotipadas de personagens que já vimos em muitos filmes. Udo Kier é o líder dessa trupe e tem um comportamento muito próximo de outro famoso vilão, Hans Gruber, do filme Duro de Matar. Os demais componentes são homens e mulheres com traumas que “justificam” sua insanidade, uma crítica direta ao desprezo dos problemas dos veteranos de guerra nos EUA que adquirem diversos desvios de comportamento em função dos traumas e daquilo que viveram no front. Em suma, versões modernas do Justiceiro da Marvel, Frank Castle, mas com a soberba típica dos que se acham superiores.

Predadores.

O filme nos conduz e nos aproxima de cada um dos habitantes de Bacurau. Como espectadores, somos englobados pelo medo da morte e da covardia. Essa empatia é fruto de uma condução exata dos diretores que, obviamente, seguiram à risca o roteiro que elaboraram. O público com mais experiência em cinema certamente irá antecipar alguns fatos, tendo como base filmes já vistos. Para esse público eu deixo o seguinte recado: vocês irão amar ter se equivocado com suas “previsões”.

Conforme o filme desenvolve, descobrimos que nem toda caça é tão frágil quanto aparenta.

Ovelhas.

Kleber e Juliano dirigiram um filme único. A fotografia é limpa, o uso da luz ambiente é perfeito, os atores não se valem do preciosismo ou de estrelismo, o que nos leva a questionar quem é ator há longa data e quem está estreando. Um destaque indiscutível está na trilha sonora (muitas vezes há o uso de música “in loco” através do guitarrista/violeiro de Bacurau) que oscila entre o suspense aterrador e o humor através de canções da região.

Em uma terra de ovelhas, alguns lobos aprenderão que nem todo dia é o dia do caçador…

As diversidades e as minorias estão representadas na obra. “Até uma puta tem seus direitos”, diz uma mulher diante do político abusador. Há gays, traições, negros, brancos, bêbados, bandidos e bandoleiros. Todos são pessoas comuns em Bacurau, um lugar utópico onde o preconceito e a violência são rechaçados por bem ou por mal. Não há espaço para brincadeiras ou humor aplicado de forma equivocada. A trama segue um fluxo reto e destinado à tragédia (para quem? Assista e descubra) e nos convoca a lutar por essas minorias. Não são apenas nordestinos. São homens, mulheres e crianças com personalidades distintas, falhas e virtudes. Uma coisa eles nunca serão: ovelhas indefesas.

Assistam essa obra-prima do cinema nacional que se consagrou em vários festivais pelo mundo e, finalmente, está disponível em nossos cinemas.

 

 

 

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