Análise Fílmica: Insterestelar (2014) - NoSet
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Análise Fílmica: Insterestelar (2014)

ATENÇÃO SPOILER ALERT: Esse post, como a maioria das minhas colunas, é destinado a quem já assistiu ao filme. Então se você ainda não viu Interestelar, prosseguir a partir daqui é por sua conta e risco.

Algumas pessoas certamente ficaram com a impressão de o filme ter dois finais. O que, de certa forma, é verdade. O próprio Jonathan Nolan confirmou que o primeiro final pensado para Interestelar seria trágico. Não, não é o que você está pensando. Você provavelmente pensou que o filme se encerraria com Cooper (Matthew McConaughey) preso no hipercubo. Ele morreria ali, mas não sem antes passar para Murphy (Jessica Chastain) as informações necessárias para completar a equação do Dr Brand (Michael Caine) e assim salvar a raça humana, correto? Engano seu.

Interestelar encerraria com um daqueles finais de cortar os pulsos. Jonathan que escreveu a primeira versão do roteiro havia idealizado um final diferente, isso na época em que o filme ainda seria dirigido por Spielberg. O longa terminaria em um final extremamente trágico: Cooper, na tentativa de enviar informações através do hipercubo, faria com que o buraco de minhoca entrasse em colapso. Ele morreria. Murphy não receberia as informações necessárias e a raça humana não seria salva. Ainda bem que Spielberg deixou a obra de lado e que o irmão de Jonathan, Christopher, se juntou ao projeto e remodelou, não só o final, mas todo o roteiro do longa.

Matthew McConaughey interpreta Cooper - um ex piloto de testes da Nasa

Matthew McConaughey interpreta Cooper – um ex piloto de testes da Nasa

Um ponto muito positivo vai para a fotografia e os efeitos visuais do filme que são, ambos, incríveis. A trilha sonora é do Hans Zimmer e retrata uma antiga parceria entre ele e os Nolans. Zimmer foi quem compôs, por exemplo, as trilhas de A Origem e de toda a trilogia do Cavaleiro das Trevas. A trilha é um personagem do filme, ela está intrínseca ao roteiro e dá o tom dramático da narrativa. Emocionante, memorável, há tempos eu não via uma trilha sonora tão presente e tão marcante. Em muitos momentos a sonoridade lembra 2001: Uma odisseia no espaço. Aliás, há quem diga que Interestelar é uma “reformulação contemporânea” de 2001.

Óbvio que além da trilha, existem outras referências à obra de Stanley Kubrick, no entanto é um exagero dizer algo desse tipo. Até porque os filmes seguem linhas completamente diferentes e fica bem claro que não há tanta coisa em comum assim. Pelo menos não para considerar um reformulação. Em 2001 HAL-9000 é o vilão da história, em Interestelar TARS é um grande auxiliar na salvação humana. Em 2001 se trabalha muito mais a essência humana, no sentido do mistério, em um sentido ontológico, individual. Já em Interestelar se trata de evolução enquanto raça humana, espírito de unidade, transcendência.

2001 é repleto de mistérios e muita coisa não fica clara nem é explicada, ou talvez nem faça sentido. Afinal, reza a lenda que o próprio Arthur C. Clarke, que escreveu 2001 juntamente com Kubrick afirmou que “se alguém conseguir entender completamente 2001, significa que falhamos”. As propostas e pretensões são claramente distintas. Interestelar, como é de praxe nos filmes de Nolan, é extremamente didático, claro e preciso.

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O filme traz, entre outras reflexões, a unidade da espécie humana enquanto raça. Eleva o altruísmo, o amor aos semelhantes. O que vale mais a autopreservação ou perpetuar a própria espécie? Cooper, o protagonista da história é altruísta, como todo herói. Aliás, um parêntese para falar de Matthew McConaughey, que brilha no papel. É incrível como esse ator deixou de ser um reles galã de comédias românticas e se tornou um profissional de capacidade e potencial imensos. É só ver o que ele faz, por exemplo, com o personagem Rust Cohle, na primeira temporada de True Detective. Para mim, Matthew é o melhor ator da atual fase do cinema norte-americano. Falando ainda de atuações, Jessica Chastain também merece muitos elogios. Ela se saiu muito bem no papel da Murphy adulta. Aliás, Jessica é uma baita atriz, é só ver seu histórico de indicações e premiações.

Mas, voltando ao aspecto filosófico do filme, analisemos, por exemplo, o Dr Mann (Matt Damon). Ele foi um dos cientistas que partiram, nas missões Lázaro (que eu penso, deviam se chamar missões Kamikaze) para os planetas possivelmente habitáveis. Mann estava entre “as pessoas mais corajosas da Terra”. Disposto a sacrificar a vida tentando encontrar um novo lar para nossa espécie. No entanto, a solidão, a desesperança, o isolamento, a agonia e o medo, entre outras coisas, o levaram a falsificar dados e induzir sua própria salvação (momento “a humanidade que se f*d@”). Um personagem extremamente altruísta passa a exercer o maior dos egoísmos, põe seu bem-estar acima da vida de, possivelmente, todo um planeta. É, plausível, devido a diferença na passagem de tempo entre os planetas desbravados e a Terra, que quando alguém chegasse até ele, se alguém chegasse, seria a última possibilidade de salvação da espécie. A missão falhando, Mann voltaria à Terra para viver os anos derradeiros.

Muitos julgaram-no como um vilão da história (ele não é, o vilão é a poeira e o próprio tempo). O cientista não era mau, apenas havia enlouquecido devido à situação limite em que foi posto e modo como foi testado. Mas e você? Iria para uma missão suicida e aceitaria passivamente seu destino trágico, para possibilitar a salvação do mundo? Ou escolheria o mesmo que Mann, manipulando dados para se salvar e viver sua vida até o fim, mesmo que isso significasse, num futuro breve, a extinção da humanidade? Optar por deixar o mundo e a espécie se perder significaria abandonar todos os avanços que há milênios nossa raça vem alcançando, seria negar toda nossa história e botar a perder todo esforço que cada ser humano já fez neste mundo. Entretanto, este inconsciente coletivo seria capaz de nos mover a ponto de sacrificar a própria vida? A resposta para essa pergunta só descobrem aqueles que são testados ao limite.

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Só tenho três críticas ao filme. A primeira é à personagem de Anne Hathaway, a Dra Brand que é muito pouco racional e emotiva por demais. Uma emoção, na maioria das vezes, prejudicial. Diria até que ela é imatura. Características estranhas para uma cientista do calibre dela. Minha segunda crítica é sobre a tentativa pífia, feita através da Dra Brand, de falar sobre o amor como algo quântico, dizer que “o amor é a única força que consegue transcender tempo e espaço”. Já está subentendido no filme o tema amor em todas as suas formas: amor paternal, filial, fraternal, etc.

Se falássemos em psicologia, o amor é uma força capaz de transcender o Ego, ok. No entanto o filme trata de ciência. Não só disso é claro, mas basicamente é uma ficção científica. Me parece que, já que Interestelar não tinha um “casalzinho”, como é clássico e regra para filmes de Hollywood, necessitou abordar forçosamente a temática amorosa de outro modo. Não precisa ter forçado essa barra.

E por fim, critico o pouco ou quase nulo mérito que é dado a Cooper pela salvação da humanidade. Murphy que resolveu a equação, e claro, se tornou uma cientista brilhante, acabou levando todo o crédito. Já Cooper, que comandou toda a missão espacial salvadora – sacrificando por conta disso toda uma vida ao lado de sua família – ; que salvou a dra Brand – naquele momento ao custo de sua própria vida -; o homem que, salvando a dra Brand possibilitou a chegada dos embriões até o novo planeta; e que enviou as informações para Murphy através do hipercubo; esse homem não mereceu ser homenageado nem ao menos com o nome de uma estação espacial. Ridículo.

Cooper viajando pelo hipercubo - um espaço criado pelos seres humanos penta dimensionais do futuro

Cooper viajando pelo hipercubo – um espaço criado pelos seres humanos penta dimensionais do futuro

Vi muitas críticas comparando Interestelar com Gravidade, filme de 2013, do diretor Alfonso Cuarón. Não vejo motivo para tal, pois, além de terem uma “aventura no espaço” como temática, os dois longas não têm absolutamente mais nada em comum. Sendo assim a comparação é descabida e desnecessária.

Vi também críticas sobre o aspecto tecnológico do filme, algo que não me incomodou nem um pouco por dois motivos: primeiro a tecnologia não é, nem de longe, tema relevante em Interestelar, segundo que a Terra e a NASA estavam completamente decadentes, não seria coerente com a narrativa a utilização de grandes tecnologias. A única atenção que o filme dá para a tecnologia são os robôs TARS e CASE que cumprem satisfatoriamente seu papel. Em alguns momentos eles roubam a cena, TARS principalmente.

Sobre a ciência de Interestelar: não sou nenhum especialista na área mas poderia gastar uns dois parágrafos rebatendo as críticas absurdas e infundadas feitas por muita gente ao aspecto científico do filme. Todavia, me limito a lembrar essas pessoas que o filme é uma “ficção” científica, e a deixá-los com um vídeo que não só prova meu posicionamento como explica tudo que você precisa saber e entender sobre a ciência de Interestelar.

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Nome original: Interstellar

País de origem: Estados Unidos

Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan

Direção: Christopher Nolan

Informações adicionais: Interestelar teve mais cenas rodadas em IMAX que qualquer um dos filmes anteriores de Christopher Nolan. Jonathan Nolan trabalhou por quatro anos no roteiro desse filme.

Os depoimentos mostrados no filme, que relatam a época em que a Terra estava coberta pela poeira, são reais. Explico. Na década de 1930 os Estados Unidos sofreram com uma praga muito semelhante a retratada no filme, a Dust Bowl. Aquelas pessoas, hoje idosas, na década de 30 testemunharam a ocorrência dessa praga. Aliás, elas são parte integrante do documentário The Dust Bowl (2012), dirigido por Ken Burns e produzido por Dayton Dancan.

A célula que daria origem a Interestelar nasceu em 2006. À época o filme, que ainda não tinha nome e nem roteiro, seria dirigido por Steven Spielberg. Jonathan Nolan foi chamado para escrever o roteiro e quando, em 2009, Spielberg moveu seu estúdio DreamWorks SKG da Paramount Pictures para a The Walt Disney Company o futuro longa ficou sem diretor. Foi aí que Jonathan sugeriu seu irmão Chistopher para a direção.

Principais premiações: Vencedor do Oscar de Melhores Efeitos Visuais. Na ocasião também fora indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Direção de Arte.

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