Análise Fílmica: Capitão Phillips (2013) - NoSet
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Análise Fílmica: Capitão Phillips (2013)

ATENÇÃO: Contém spoilers

De indiscutível qualidade técnica, Capitão Phillips, traz Tom Hanks em sua melhor performance desde Náufrago (2000). O ator amador Barkhad Abdi, que interpreta o pirata somali Abduwali Muse, apesar da inexperiência também se destaca pela qualidade de sua atuação. O filme conta, além de boas atuações, com uma direção, roteiro, produção e fotografia dignos de aplausos. A comovente atuação de Tom Hanks significou para muitos críticos como o seu “retorno” aos dias de glória. O ator, que já levou dois Oscars de Melhor Ator, nos últimos anos não vinha se destacando muito em seus papéis.

Podemos perceber o “retorno” de Hanks, principalmente, nos momentos finais do filme. A partir do sequestro do capitão Richard Phillips, o personagem de Hanks tem pouquíssimas falas. O show fica por conta apenas de suas expressões e da linguagem corporal. E o fim, bem, o que dizer daquela cena final em que Phillips desaba ao ser atendido pela paramédica, logo após ser resgatado pelos Seals. É impossível não se compadecer pelo personagem. Conseguimos entender o drama que o capitão passa sem que ele precise nos dizer isso. E mesmo que ele tivesse mais falas, elas não seriam suficientes e não conseguiriam transmitir os mesmos sentimentos. Ou ainda, como não achar magnífica a interpretação de Hanks, na cena em que os três piratas são executados. Além disso, o ator, ao longo de todo o filme não decepcionou. É certo que os momentos finais foram os mais brilhantes, entretanto, durante toda a interação com os piratas, e até mesmo nos momentos que antecedem a subida deles ao navio, Hanks consegue transmitir, ao mesmo tempo, calma e tensão. Muitas vezes apenas com as expressões em sua face.

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Piratas somalis prontos para invadir o Maersk Alabama

O filme é repleto de cenas tensas, que nos deixam aflitos. Capitão Phillips é daquelas obras que nos fazem ficar duas horas segurando a respiração. E apesar de contar com mais de duas horas de duração a película não é cansativa. Muitos filmes longos acabam, em certo ponto da narrativa, acabam se tornando arrastados e maçantes. Capitão Phillips mantém o espectador acordado e concentrado do início ao fim. Mérito para a produção ao retratar as reais motivações dos piratas somalis. Pescadores sem opções acabam sendo explorados e obrigados a praticarem a pirataria, por ordem e imposição de criminosos muito piores. É como diz Muse (Barkhad Abdi) em um dado momento da narrativa: quando Phillips, em conversa com o líder somali, menciona que há outras saídas, que não ser pescador ou assaltar navios. Como resposta, Muse afirma que “talvez nos Estados Unidos da América” haja, mas não na Somália.

Até mesmo a pescaria é um modo muito difícil de sobrevivência na Somália, um país degenerado pela Guerra Civil, desde 1991. Como Muse também fala no filme, fica impossível para os pescadores locais competirem com cargueiros internacionais. Desta forma, o país que contém a maior costa da África, degenerado pela guerra e com pouquíssimos caminhos para seus habitantes, acabou se tornando local de espoliação marítima estrangeira.

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Tom Hanks em sua melhor atuação desde Náufrago (2000)

Filmes que se baseiam em fatos reais sempre nos afetam, e nos fazem questionar se os fatos realmente aconteceram do modo retratado nas telas. Segundo informações encontradas na internet, o verdadeiro capitão Phillips não agiu de forma tão calma e honesta como o personagem interpretado por Tom Hanks. De acordo com membros daquela tripulação, o verdadeiro Phillips era inconsequente, egocêntrico, autoritário e egoísta. Porém, todos sabemos que é sempre preciso romancear mais os fatos, tudo em favor da qualidade cinematográfica.

No desenrolar do clímax testemunhamos a execução de três somalis em favor da vida de um norte-americano. Claro que na situação estabelecida não restavam muitas opções para salvar a vida de um inocente sequestrado por três, ali configurados, criminosos. Todavia, é possível refletirmos sobre o abismo social que existe entre os dois países. E o porquê de uma vida humana valer mais que outras três. Quem tem mais direito a vida? Um habitante de um país com poder esmagador tal qual os Estados Unidos, ou três pessoas advindas de uma região completamente dominada pela pobreza e pela miséria. Os fins nunca justificam os meios. Mas essa realidade, complexa e controversa não é uma simples romantização retratada nas telas do cinema. Situações como essas são cotidianas e bem reais.

Capitão Phillips, no geral, não conta com muitos cenários. A trama se desenvolve em torno das emoções representadas. A tensão e o medo predominam. A agonia claustrofóbica vivida por Richard Phillips, fazem de Capitão Phillips uma experiência de sensações, em sua maioria, angustiantes e tensas. Fazendo com que o espectador se entregue facilmente a emoção deste belo filme.

pro final do texto

Tom Hanks e o verdadeiro capitão Richard Phillips

Nome original: Captain Phillips

Diretor: Paul Greengrass

País de origem: Estados Unidos

Informações adicionais: O filme é baseado na história real de Richard Phillips, capitão do navio cargueiro Maersk Alabama, que foi mantido refém por piratas somalis durante cinco dias em abril de 2009. Nenhum dos atores que interpreta os piratas somalis era, originalmente, um profissional do ramo. A equipe de produção fez questão de recrutar somalis verdadeiros, que falassem tanto o inglês quanto o idioma da Somália. A paramédica que aparece, ao final do filme, tratando de Phillips, após ele ser resgatado da baleeira, também não é atriz por profissão. No filme ela interpreta o papel que desempenha na vida real, cuidando da saúde das tripulações com as quais navega.

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