Aladdin: diversão, humor e muito respeito à animação original resultam no melhor live action. - NoSet
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Aladdin: diversão, humor e muito respeito à animação original resultam no melhor live action.

Aladdin, a animação de 1992, se tornou um dos melhores filmes produzidos pela Disney em todos os tempos. Atores competentes cederam suas vozes aos personagens, cenas inacreditáveis, humor feito com inteligência e a retomada de um dos mais antigos contos da humanidade deram, sem dúvidas, muito certo. Então, o que poderia dar errado ao fazer um live action desse clássico amado por milhões de pessoas ao redor do mundo?

A resposta à questão acima se resumiria ao cuidado com que os responsáveis por essa versão com atores reais teriam. Algumas produções da Disney não foram muito bem recebidas pelo público mais “fanboy” dos originais (A Bela e a Fera – sucesso comercial e falha para a crítica especializada -, Peter Pan, Dumbo), enquanto outras mostraram resultados impressionantes (Alice no País das Maravilhas, Mogli: O Menino Lobo, Cinderella, Malévola). E finalmente chegamos ao tão aguardado lançamento de Aladdin. Será que a Disney conseguirá o sucesso de público e crítica (e, por sua vez, bilheteria) com essa nova adaptação de um clássico imortalizado por atuações magníficas de nomes como Robin Williams?

Como resposta à questão acima, continuem comigo neste que é o review que eu mais gostei de escrever até hoje. Antes, claro, o trailer para prepará-los para o que virá…

Qual a melhor versão: a original ou o live action?

Essa é uma pergunta que muitos fizeram e continuam a fazer. A resposta é bem simples: o original de 1992 é um clássico absoluto da animação que contou com as vozes e as interpretações de grandes talentos, além de um humor afiadíssimo e inteligente; já o novo Aladdin é repleto de atuações marcantes por parte do elenco escolhido de forma primorosa, cenas de humor tão boas quanto às originais (mas cheias de novidades) e um visual que brinda os olhos do espectador com um espetáculo de cores e localidades lindíssimas.

Em suma, os dois filmes são absolutamente maravilhosos.

Mudanças na história original.

Sim, como a maioria dos “live action” da Disney, algumas alterações foram feitas. Desta vez, contudo, não houve radicais mudanças que incomodassem o público. De forma inteligente, os produtores de Aladdin não alteraram a essência das personagens ou deturparam a trama.

Uma das principais diferenças está no papel do Gênio (Will Smith) que ganha mais destaque ao ter um papel primordial no início da história e também no fim (ele é o elo narrativo desta trama). No mais, pequenas nuances que se justificam e dão dinâmica à narrativa, sempre de modo muito respeitoso com a animação de 1992.

Lições embutidas.

Desde a ganância de Ja’Far que destaca o quanto a sede de poder pode ser traiçoeira, passando por Aladdin e sua “jornada do herói”, até chegarmos a Jasmine, cujo caráter é incorruptível, esta nova produção da Disney está repleta de belas lições ao longo da história.

Algumas frases marcam pela força de suas palavras. Por exemplo, há uma passagem onde citam “Quem não tem nada deve agir como se tivesse tudo”, uma alusão à força necessária para sobreviver em meio à pobreza e ao descaso dos mais abastados, mais especificamente em uma situação onde a vestimenta dita quem você é na sociedade.

Jasmine dá diversas demonstrações de persistência diante de situações a ela impostas. Não há desrespeito em suas atitudes, porém não encontramos acatamento a algo que ela sabe que não a agradará. Essa força também foi vista na animação e ganhou mais destaque na direção de Guy Ritchie.

Outra boa passagem mostra o quanto o filme debate sobre a parcialidade dos julgamentos diante daquele que os pratica. Resumidamente, a frase a seguir cita a diferença da interpretação da lei diante da classe social ou do poder de quem pratica um delito: “Se roubar um maçã, você é um ladrão. Se roubar um reino é um estadista.”

Quanto ao Gênio e Aladdin, novamente encontramos uma amizade que ganha força conforme o filme progride. Mais do que amigos, eles descobrem que se tornaram irmãos quando ambos se arriscam ou abandonam oportunidades em prol da amizade.

Musical?

Ah, as canções de Aladdin, a animação, foram praticamente mantidas, mesmo com pequenas mudanças. Vi a maioria da platéia cantar e se emocionar com clássicos como “Prince Ali” e “A Whole New Word”, apenas para citar. Mas o ponto alto está nas coreografias em algumas delas (algo que remete ao cinema indiano, Bollywood, mas com uma pegada de street dance) e no contexto em que foram inseridas. Tudo, repito, perfeito.

As canções novamente têm o toque de Alan Menken, o mesmo da animação original.

Efeitos visuais e locações.

Esse é um tópico apenas para destacar o apuro desse novo Aladdin. Cenários fabulosos, indumentárias perfeitas, locações imponentes e figurantes dão o tom correto para que voltemos a sentir a magia da animação, desta vez com seres humanos de verdade. Como já dito, pequenas falhas são perceptíveis no CGI do Gênio, o que não diminui em nada o brilho da obra.

A fotografia, som, o roteiro e a direção são outros pontos que merecem nosso aplauso.

Elenco e compatibilidade com as personagens.

Vamos ser honestos. Quase todo mundo ficou preocupado com a presença de um elenco desconhecido do grande público – exceto, óbvio, Will Smith – e também houve críticas exacerbadas sobre o potencial do Gênio. Como seria possível trazer para a “vida real” o carismático gênio que ganhou uma personalidade única com a interpretação inesquecível de Robin Williams? Eram muitas dúvidas que, felizmente, se mostraram infundadas.

A questão mais importante foi respondida com uma atuação sólida e divertidíssima de Will Smith. Apesar de pequenas lacunas no CGI do Gênio, o humor e as cenas onde ele aparece são inesquecíveis e têm o mesmo nível de diversão presente na animação (isso sem precisar reprisar as cenas quadro a quadro).

Ja’Far (Marwan Kenzari) ganhou um ar menos sombrio, mas manteve a malignidade das atitudes e intenções do original, além de uma atuação consistente por parte do ator. Jasmine (Naomi Scott) preserva a beleza da princesa e também suas atitudes fortes e decididas; na verdade ela ganha ares de uma mulher ainda mais independente que a versão animada. Aladdin (Mena Massoud) é a síntese da boa pessoa que precisa cometer pequenos delitos para sobreviver, mas é na interação entre ele e o Gênio que descobrimos o quanto foi acertada a escolha do ator para o papel. Dalia (Nasim Pedrad) é a novidade na trama como a Dama de Companhia de Jasmine e que marca alguns dos pontos divertidos da história por conta da atuação consistente da atriz.

O Sultão (Navid Negahban) se mostra o mesmo pai preocupado com o futuro de sua filha, ainda que sem os quilinhos a mais da animação. Por fim, a presença do chefe da guarda Hakim (Numan Acar) dá maior destaque para os guardas palaciais que na animação são meros coadjuvantes e peças de apoio para mostrar a agilidade de Aladdin.

Mas o melhor de tudo está na escolha de um elenco com traços árabes bem definidos. Apesar de termos atores e atrizes oriundos de lugares como Inglaterra, Canadá, Holanda, EUA, Alemanha, além de Iranianos (que não são árabes), eles têm visível ligação com os povos do Oriente Médio. Essa escolha deu credibilidade ainda maior à produção, remetendo o espectador ao distante reino de Agrabah.

Nota: Abu, o macaquinho, é um dos pontos altos do filme que fazem com que cada centavo investido valha a pena, além do cativante Tapete Mágico, cujo carisma contagia. Iago e Rajah têm importância na obra, mas Iago tem menos falas (e nem por isso menos importantes), ao passo que Rajah ganha quase o mesmo tempo de tela que o visto na animação.

                                                                                                                            Nasim Pedrad é Dalia e Naomi Scott é Jasmine

Direção.

Esse é um dos pontos mais interessantes do filme, já que sem uma direção competente, provavelmente o filme ruiria. A direção ficou sob a responsabilidade de Guy Ritchie (Snatch: porcos e diamantes, Sherlock Holmes) que obteve sucesso ao dirigir um elenco tão diverso e conciliar essas atuações com os já conhecidos Chroma Key e com personagens que seriam inseridas através de CGI.

Basta destacar que Will Smith aparece em grande parte do filme como o Gênio, oscilando de formas e velocidade em diversas cenas. Dar credibilidade a isso não foi exclusividade do ator que, certamente, teve uma ótima direção por parte de Guy. O mesmo se aplica ao resto do elenco e às cenas mais complexas.

Em suma, Guy Ritchie fez um excelente trabalho.

Quem apostou contra, perdeu feio.

Não há necessidade de expor as pequenas mudanças da trama ou os pontos altos. Aladdin é uma obra que precisa ser vista e admirada, tanto por seu apuro quanto pela dignidade em conservar a essência da animação.

E, ao contrário das expectativas dos pessimistas, o filme é visualmente impecável, repleto de cenas engraçadíssimas que fizeram os espectadores rirem em uníssono. Com a criação de Agrabah e também de outros cenários que pareciam difíceis de serem reproduzidos em um live action, além das presenças dos animais que amamos (Abu, Iago e Rajah), esse é comprovadamente o melhor das adaptações para a “vida real” das animações da Disney.

 

 

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