Crítica: Ad Astra: solidão, família e ficção científica - NoSet
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Crítica: Ad Astra: solidão, família e ficção científica

O que esperar de um filme sobre o espaço sideral após duas obras impactantes e emocionantes como Gravidade e Interestelar? O que esperar de um longa que conta como protagonista o astro Brad Pitt que deu vida a personagens marcantes como o detetive Mills (Se7en), o vampiro Louis (Entrevista com o Vampiro), Tyler Durden (O clube da luta), Benjamin Button (O curioso caso de Benjamin Button), o Tenente Aldo Raine (Bastardos Inglórios), Samuel Bass (12 Anos de Escravidão), Guerry Lane (Guerra Mundial Z) e muitos outros?

Ad Astra é um filme com um potencial inacreditável. Conta com efeitos impressionantes, cenas de tirar o fôlego, tem uma premissa interessante e conta com um elenco com nomes como Tommy Lee Jones, Liv Tyler, Donald Sutherland, Ruth Negga, Kimberly Elise, John Ortiz e grande elenco.

John Ortiz, Donald Sutherland, James Gray, Director/Writer/Producer, Liv Tyler, Tommy Lee Jones, Ruth Negga, Brad Pitt

Então, com todos esses atributos, o longa-metragem é bom ou ficou abaixo da média? Continue comigo após o trailer e vamos à análise e resposta dessa pergunta…

A premissa.

Ad Astra é uma obra de ficção científica com um profundo debate sobre a relação entre um pai e seu filho. O pai em questão é ninguém menos que Tommy Lee Jones que dá vida ao astronauta Cliff McBride, ao passo que seu filho, Roy McBride, é interpretado por Brad Pitt.

Na verdade, essa relação é algo que vaga na dúvida por um longo tempo do filme, uma vez que Cliff é dado como morto há décadas. Por ser um herói das viagens espaciais e um exemplo para o filho, o caminho mais natural é que este siga os passos do pai e se torne um explorador espacial. Mas o fato é que Roy não se desapegou em momento algum da memória do pai e, no fundo do coração, nutre a esperança de que as notícias sobre a morte dele sejam exageradas.

Em meio a essa vida atribulada e uma dedicação incomum à carreira, Roy é apresentado ao espectador como o mais “frio” profissional da exploração espacial. Seu profissionalismo é uma lenda entre os seus pares e aqueles que o comandam e, por tais atributos, ele é convocada a ajudar a evitar uma catástrofe que poderá destruir a Terra e todas as colônias existentes.

Sim, eu disse “colônias”.

O futuro e a possibilidade do fim.

Um dos pontos mais interessantes de Ad Astra está no futuro apresentado. Logo no início contemplamos uma estação de monitoramento que lembra uma plataforma petrolífera (a grosso modo) com alguns quilômetros de altura. Essa cena inicial é de tirar o fôlego e é provocada por uma onda de energia que desabilita todos os equipamentos eletrônicos e destrói boa parte deles.

Essa é a primeira aparição de Roy McBride, cuja perícia e preparo para situações de risco são evidenciados com toda a adrenalina possível.


A onda energética provoca destruição em vários locais da Terra, o que leva os superiores de Roy a convocá-lo para uma missão que não apenas tem o potencial de salvar tudo aquilo que a ciência e as viagens espaciais criaram como, ainda, pode colocar o astronauta rumo à busca por algo que ele considerava perdido: o próprio pai.

Esse é o início de uma viagem onde Roy e nós descobriremos que o poder, a traição, a cobiça e a solidão ainda são comuns na humanidade desse futuro hipotético.

A partir daí teremos um vislumbre interessantíssimo do futuro da exploração espacial. Um futuro com bastante coerência no qual a Lua passará a ser uma base de lançamento avançada para Marte que, por sua vez, é a última área de lançamento de naves. Preparem-se para um futuro impressionante no qual a definição de “pirataria” foi totalmente reformulada, além de cenas na Lua e em Marte que foram muito bem elaboradas.

A solidão como companheira

A jornada de Roy é plena de uma solidão que não é tão incomum nos dias atuais. Por sua extrema dedicação ao serviço, ele se afasta da mulher que ama, se torna um homem voltado exclusivamente ao trabalho e é conhecido por sua frieza diante das mais graves situações. Esses atributos foram primordiais para a seleção na nova viagem espacial, mas também servem para mostrar que o sumiço do pai serviu para moldá-lo da forma errada. Ninguém deve ser solitário. Ninguém deve sofrer em silêncio. Acima de tudo, ninguém deve partir para uma missão que poderá colocá-lo frente à confirmação da morte de um ente querido ou, pior, frente ao fim da imagem de um pai amado.

Mesmo acompanhado por uma tripulação, mesmo estando em uma estação espacial repleta de pessoas ou ao lado de quem conheça seu passado e o do pai dele, a verdade é que Roy criou uma barreira para si com a mais densa e dolorosa solidão.

Coadjuvantes de luxo.

As participações de Liv Tyler, Donald Sutherland e até mesmo Tommy Lee Jones foram breves e não dão o impacto ou o espaço necessário para que ocorra o destaque dos mesmos. Na verdade, Tommy tem mais tempo de tela e isso não é aproveitado como já vimos em outras obras onde o ator atuou. Temos três ótimos atores que não receberam o devido espaço para expandir sua arte, algo que pode ser atribuído ao roteiro apressado e, por vezes, raso ou à opção de dar todo o protagonismo (e destaque em tela) para Brad Pitt.

Em suma, temos três ótimos coadjuvantes que não foram utilizados da forma correta.

Ficção ou drama?

Esse é o ponto frágil da história. Com o intuito de maximizar o sofrimento de Roy, o roteiro e a direção de James Gray tentam conduzir o espectador à uma épica busca de respostas de um filho por parte do pai dele, porém o que deveria provocar agonia e dor ao público (ou no mínimo empatia) se torna, gradualmente, uma trama rasa e com interpretações que não convencem. Os já citados Gravidade e Interestelar provocam a imaginação do público, levam ao questionamento e, sobretudo, emocionam. Ad Astra, por sua vez, tem um foco grande na criação de um futuro utópico e possível, cheio de efeitos e com imagens marcantes, sem que isso provoque emoções maiores em que assiste ao longa. O drama perde força com algumas falhas de roteiro e, infelizmente, a atuação de Tommy Lee Jones já não tem o vigor interpretativo de outrora. Não há a química de pai e filho entre ele e Pitt que provoque emoções fortes no público. Já a ficção científica, principalmente no tocante ao retorno do protagonista, é feita de forma apressada e, em algumas ocasiões, de forma pouco convincente.

Ficamos com um drama pouco consistente, ao passo que o problema da “onda” se perde no decorrer da história.

O longa é um entretenimento pleno de cenas lindas e com a construção muito bem feita de um provável futuro para a exploração espacial. Ao mesmo tempo ele tende a se valer da dramaticidade de Roy para impactar, contudo isso não se consuma em nenhum dos lados. O foco nos efeitos visuais (que não são tão impactantes quanto nos filmes citados no início do post) perde o sentido quando a trama não aproxima o espectador de forma convincente do drama pessoal do protagonista.

O filme tem um grande potencial que, indubitavelmente, não foi explorado da forma correta. Tecnicamente é impecável; emocionalmente, ele falha. Infelizmente, repito.

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