Quando o tempo clama por nossos heróis. - NoSet
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Quando o tempo clama por nossos heróis.

*Apesar de ser um texto meu de 2012, o conteúdo ainda é de extrema pertinência. Boa leitura…

Não sei como vocês são, suas idades ou o que curtem (exceto as leituras do Apogeu), mas creio que a maioria tem a faixa etária abaixo da minha (estou com 41 anos). Também não sei explicar o que anda passando por minha mente, pois tenho tido uma sensação constante de perda, motivada, em grande parte, pela morte de muitos dos que aprendi a admirar. O tempo continua correndo, indiferente a mim e, durante esse transcorrer, acompanhei muitas despedidas tristes.

Contudo, não apenas as pessoas próximas, familiares, partiram. Diversas personalidades públicas foram levadas pelo tempo, vítimas da inevitável morte.

Chico Anysio, Chico Xavier, Steve Jobs, Eric Hobsbawm, Renato Russo, Michael Clarke Duncan, Millôr, Rogério Cardoso, Ray Bradbury, José Saramago, Nair Belo, Robin Williams, Heath Ledger, Stan Lee, Paulo Silvino, Nelson Xavier, Belchior… são muitos os nomes de pessoas que fizeram parte da minha vida e, contrariando minha vontade, partiram. É inevitável a sensação de saudade que essas mortes  criam.   Também  é  i­nevitável a percepção de que somos cada vez mais mortais. Sim, pois quando jovens, a mente e a confiança em nossa “invulnerabilidade” trabalham para que sejamos prepotentes, quase arrogantes.

Ontem (28/11/12), a notícia do estado de saúde de Joelmir Beting me alertou sobre o que falo agora. Novamente a idade avançada, e as sequelas implicadas pelo transcorrer dos anos, causaram-me espanto. É estranho ver ícones, pessoas que admiramos, adoecerem e – em alguns casos – morrerem. Não que haja algo de diferente nisso (todos morreremos), porém é a velocidade com que isso acontece, a forma como inteligências e histórias brilhantes são apagadas de nosso convívio que me assustam. Talvez, inconscientemente, eu tenha medo de que a dama silenciosa também me abrace. É provável que os anos me levem a pensar mais e mais na partida, naquilo que abandonarei contra minha vontade.

Mas quanto conta minha vontade?

Hoje (29/11/2012) despertei com a notícia da morte de Joelmir Beting. Algo, de certo modo, inesperado. Mas nada do que eu diga pode alterar o fato. Como também nada do que eu faça irá evitar minha morte ou a morte de quem admiro ou amo. Isso é viver. Isso é morrer.

Resta-me apenas viver com plenitude. Aproveitar os bons momentos, aprender com os maus e, com o tempo, descartá-los. Felicidade é a colheita das pequenas alegrias, o somatório delas. Felicidade é aprender com os traumas e obstáculos, mas legar um canto bem escuro do esquecimento para eles.

Cedo ou tarde minha vontade será esquecida e, inevitavelmente, serei convocado para a longa viagem. Contudo, meu legado (tal como os ícones e pessoas que amei deixaram) ficará para os que nutrem amor por mim. Serei muito mais que uma memória, ainda que o tempo faça com que me esqueçam. Quando algo trouxer novamente minha lembrança à tona, então estarei novamente vivo. Que as gerações seguintes aprendam que, um dia, eu amei como cada um que delas faz parte.

O tempo é frio e não poupa ninguém. Mas o calor de quem ama e a saudade que habita corações é forte o suficiente para perpetuar até os mais anônimos. Assim, quando o tempo clamar por nossos heróis ou por pessoas próximas a nós, resta-nos a certeza de que suas histórias podem ficar para sempre vivas… em nós e naqueles que nos sucederem.

Ad Infinitum.

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