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Pelos Belmiros e Severinos

Se ele ama ele, ou, se ela ama ela, se ela sente-se como ele, ou se ele sente-se como ela, isso não lhe diz respeito. Aliás, isso diz, isso grita, isso pede: Respeito!

O maior problema não é falta de conteúdo que ensinem de forma científica, acadêmica, evidenciada as questões de gênero, orientação sexual e sexo biológico, essas informações existem, são variadas, de fontes confiáveis, disponíveis em livros, artigos, vídeos, em todas as plataformas, mas ainda existe um impeditivo para que esse tipo de conhecimento se torne universal: ele precisa ser decentralizado!

Hoje os grandes debates, os grandes eventos, as mesas de discussão que trazem a baila temas como identidade de gênero, sexualidade, diversidade, estão concentrados em grandes centros urbanos, o que é compreensível, uma vez que estão também concentrados nesses grandes centros a maior parte da produção artística e cultural do país, mas é preciso que se faça uma reflexão sobre isso e que se compreenda um fator determinante, não por fórum de privilegio, mas de necessidade.

Do Sertão nordestino, as planícies alagadas do Pantanal, até as florestas da Amazônia, a população indígena, quilombola, ribeirinha, que vive nas pequenas cidades, ou, nas cidades distantes das capitais e dos complexos de produção acadêmica e científica, estão sofrendo pela falta de conhecimento que lhes fale a própria linguagem, que lhes estenda a mão, e lhes permita a tão sonhada “alforria” da ignorância para bradar o sonho da liberdade.

Levar a temática da diversidade para o interior do Brasil é uma urgência tão importante, e nisso não estou sendo exagerado, quanto fazer chegar alimento, água e medicamento. Jovens estão morrendo, tirando a própria vida por não compreenderem o que se passa consigo mesmos, uma vez que são criados pela mão insensível do conservadorismo, do pensamento empírico, deísta, e provinciano. Quem ouvirá os gritos destes jovens e levará a eles a “alforria” da alma, do espírito, da moral?

Precisamos falar de orientação sexual no Sertão, onde Severino vive já com seus 17 anos, 6 irmãos, um pai trabalhador rural, analfabeto, uma mãe rendeira e profundamente católica, que assistindo a novela vê dois homens de mãos dadas e brada em alta voz: “Queima, Jesus!” – Mãos dadas que também serão sermão da missa no domingo, assunto no vilarejo, e um fardo a mais para o jovem Severino, homossexual, mas que se quer entende o que se passa em seu corpo, sabe apenas que um dia, sua alma arderá no fogo do inferno. Severino precisa de ajuda.

Também precisamos falar de identidade de gênero, lá nas planícies alagadas do Pantanal de Mato Grosso, onde Delmiro, jovem de 19 anos vive com os pais e 3 irmãos menores. O pai de Belmiro é boiadeiro, sua mãe cuida da casa e dos animais, Delmiro não sabe de nada, mas sabe que homem ele não é, ou melhor, sabe que é homem, mas sente como se fosse mulher. Na verdade, Delmiro já não sabe mais o que fazer, vive depressivo, solitário, já tentou tirar a própria vida, não conseguiu. O pastor diz que é obra do diabo, a mãe reza, o pai surra de vara, o médico da o remédio, mas o que ninguém sabe dar é a explicação.

No Brasil são milhares de Severinos, Belmiros, sem esperança, sem solução, a espera de um milagre, de alguém que lhes permita o grito de liberdade, de independência. É preciso sim produzir material, criar eventos, mas é preciso olhar para os que vivem longe dos grandes centros, é preciso universalizar o acesso a informação, é preciso dar a “forra” para os que sofrem calados, a dor da incompreensão de si mesmos.

Pelos Belmiros e Severinos, eu digo, SIM!

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