Os cervos e a casa de passagem - NoSet
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Os cervos e a casa de passagem

O garoto balançava ritmadamente os pés, que não tocavam o chão. O resto de seu corpo permanecia imóvel no banco de praça. As mãos escondiam-se sob as cochas roliças. A barriga pronunciada ganhava ainda mais destaque com a camisa xadrez apertada. No rosto redondo, estavam enfiados dois olhos envoltos em preocupação. Sua concentração era absoluta.

Marlise reduziu o passo quando o viu ali. Era a terceira vez naquela semana. Nas duas semanas anteriores, foram várias. O garoto aparecia no final da tarde e permanecia horas naquele banco, sentado bem de frente para o viveiro dos alces. Nas primeiras vezes, ela mal reparou. A insistência da presença dele, contudo, despertou a sua curiosidade. Não era normal aquele fascínio pelos ruminantes, embora não fossem animais comuns ali, no interior do Rio Grande do Sul. No geral, as crianças preferiam a estrela do pequeno zoológico, a onça pintada. Ou os macacos, que alimentavam com toda a espécie de porcaria, mesmo com diante das diversas placas de proibição. Todos os meses, um ou dois deles ficavam doentes com aquele contrabando de doces, pipocas e salgadinhos. O fluxo de macacos com intoxicações e outros problemas intestinais somente aumentava a sua carga trabalho que, desde a despedida do outro veterinário, parecia tomar cada segundo livre do seu dia.

Ela cumprimentou o garoto e ele lhe respondeu com um pequeno aceno. Como das outras vezes, permaneceu calado e olhando fixamente para o viveiro. Ela já tinha tentado puxar papo uma ou duas vezes antes, sem muito sucesso. Tinha dúvidas quanto à sua idade. Certamente, ele não tinha mais do que sete anos. Não era incomum, na pequena cidade, que crianças andassem desacompanhadas pela rua. Mas nunca viu nenhum adulto perto daquele menino. Chegou a cogitar informar a polícia ou algum outro órgão de proteção à infância. Ao final, achou a sua preocupação exagerada. Ele parecia bem, saudável e alimentado. Até alimentado demais. Aquela aflição, concluiu, era típica de pessoas de cidade grande. Neuróticos que viam problemas em tudo, até mesmo em uma criança sentado num banco. O tipo de pensamento doentio do qual tentou fugir ao aceitar aquele emprego e se mudar para o interior.

Pensou em algo para dizer a ele, mas nada lhe ocorreu. Não tinha jeito com crianças. Nunca convivera com uma. Sequer irmãos teve. Assim, passou por ele mais uma vez e foi examinar a única zebra do zoológico, que lhe disseram estar mancando.

Dois dias depois, ele estava ali de novo. Recostado para trás, os pés balançando no ar. Desta vez, ela tinha uma abordagem programada. Enquanto sentava na ponta do banco, tirou um chocolate do bolso, abriu-o devagar e começou a comer. Conseguiu atrair a atenção dele. O humano era um animal como os demais, e atrair com boa comida nunca falhava. Meteu a mão no bolso e retirou outra barra.

— Quer?

Seu olhar de gula contrastou com o movimento negativo da cabeça.

— Nã… não, obrigado.

— Tem certeza? Vou te confessar uma coisa — ela se aproximou um pouco dele e reduziu a altura da voz —, eu trouxe esta a mais para ti. Imaginei que gostaria.

Ele ficou claramente desconfiado. Afastou-se um pouco no banco.

— Minha mãe diz para eu não aceitar coisas de estranhos.

— Ah, sim, sua mãe está certa. Mas nós não somos estranhos, somos? Nos vemos aqui sempre. Nos cumprimentamos. Já até conversamos um pouco. Não somos mais estranhos. Somos… — ela tentou encontrar alguma conexão, por menor que fosse — parceiros de parque.

— Parceiros de parque? — ele continuava desconfiado.

— Sim. Não somos estranhos. Pode pegar.

Ela lhe estendeu a barra outra vez. Ele ficou pensativo. Depois, olhou rapidamente para os lados, como se fosse furtar alguma coisa. Então venceu a própria resistência e pegou o chocolate. Depois da primeira mordida, deu um pequeno sorriso, ela não soube dizer se contente com o sabor ou com a sua ousadia. Marlise tentou puxar assunto uma ou duas vezes, mas ele respondia apenas com monossílabos. Por fim, ela desistiu.

Apenas ficaram ali, cada um com a sua doçura, olhando os alces ruminarem.

A divisão do chocolate virou uma rotina. Ela comprou um caixa de barras e sempre carregava duas. Nos dias em que ele aparecia, sentavam juntos e comiam. Não falavam muita coisa. Toda vez que ela tentava iniciar uma conversa sobre a escola ou a família, ele dizia algo vago como “bem”, “normal” ou “é perto”. Algumas vezes, simplesmente ficava quieto e fingia não ter ouvido a pergunta. E assim, apesar da nova proximidade, o mistério entorno de André, que ela descobriu na segunda barra de chocolate ser o seu nome, somente crescia.

Conforme os dias foram passando, a presença de André ficou mais frequente. Ela passou a gostar daquelas pequenas pausas na sua rotina. Nos dias em que ele passava no banco ao final da tarde e não o via, sentia uma pequena tristeza. Voltava mais algumas vezes, somente para ter certeza de que ele não se atrasou. Ao final, ia para casa com a sensação de que o dia fora incompleto.

O silêncio continuou a ser a tônica daqueles encontros. Ela se deixou vencer pelo mutismo do garoto, que, ao final, passou a achar reconfortante. Era um hiato de seu serviço e também da sua vida. Sentada no banco, não tocava no seu telefone. Isolava-se do mundo e permanecia olhando para o viveiro, como que espelhando a tranquilidade dos cervos. Eles lhe devolviam o olhar, como se se estivessem intrigados. Naquele dia, ela foi tomada por um misto de susto e surpresa quando ele se virou e começou a falar.

— Você é dona daqui? — A frase saiu alta e rápida, em um impulso. Como se estivesse represada dentro dele há muito tempo.

— Não — ela deu uma pequena risada —, eu só trabalho aqui. Mas o zoológico é da cidade.

— Trabalha aqui?

— Sim.

Ele pensou um pouco.

— Então, se trabalha aqui, tem a chave das gaiolas?

Ela deu outra pequena risada antes de responder.

— Tenho. Eu cuido dos bichos, para eles não ficarem doentes.

— Então você pode soltá-los? — perguntou, apontando para os cervos.

— Soltá-los? Como assim?

— Eles precisam sair.

Muitas crianças queriam soltar os animais. Era uma pergunta frequente nas visitas das escolas. Geralmente, entretanto, eram as maiores que pediam aquilo.

— André, os cervos estão acostumados a viver ali dentro. Nós cuidamos deles. Damos comida, remédio. Eles são felizes. Olha como estão tranquilos. Se fossem soltos, correriam perigo. Poderiam se machucar.

— Não, eles têm que sair! Você não entende!

Pela primeira vez, desde que se conheciam, ele levantou o tom de voz. Ele ficou de pé e foi em direção ao viveiro. Ela não sabia ao certo o que fazer. Foi ao encontro dele.

Ficaram os dois no limite da cerca, enquanto os dois cervos próximos se afastam. Ele se virou para ela. A trilha de uma lágrima estava desenhada abaixo no lado direito do seu rosto.

— Eles têm que sair. O Papai Noel vai precisar deles!

Ela segurou o riso. O menino certamente ficaria ofendido. Era aquela a resposta para as longas vigílias? Segurou o riso novamente. Ela pensou em lhe dizer que aquilo eram cervos e não renas, mas não quis acabar com a fantasia. Aquela mistura de inocência e imaginação a cativaram.

— O Papai Noel tem as renas dele.

— Aqui não! Essas são as únicas! Ano passado elas ficaram presas aqui e ele não veio. Tu tem que soltar elas. — Mais lágrimas escorriam pelo rosto agora.

— André, é como eu lhe disse, essas não são as renas do Papai Noel. Ele tem as dele, que são mágicas. Voam. — Algo na fala dele a incomodava, e ela percebeu o quê. — Por que tu disse que no ano passado ele não veio?

— Tu não vai me ajudar. Eu sabia — com a voz embargada,  ele virou as costas e saiu andando.

Aquela conversa deixou Marlise incomodada pelos dias seguintes. André não aparecia no viveiro há mais de uma semana. Preocupada, começou a fazer perguntas sobre ele aos colegas, para ver se algum o conhecia. Foi Joana, da limpeza, que finalmente lhe disse o que queria saber.

— Sim, o André. Estuda na mesma escola do meu filho. Já vi vocês conversando. Achei estranho, mas achei que ele estava lhe perguntando alguma coisa sobre os bichos. Ele não é de falar muito. Pelo menos, não depois do que aconteceu.

— O que “aconteceu”?

— A mãe dele foi embora. Deixou ele sozinho em casa três dias, até que um vizinho acho estranho e chamou a polícia.

— Como assim “foi embora”?

— Não se sabe. Caiu no mundo. Ela dizia que ia fazer isso. Ir embora, mas ninguém dava muita bola. Sempre foi meio louquinha, sabe? Até que um dia ela se foi.

— E o pai dele?

— Ninguém sabe quem é. Quando Joana ficou grávida, foi um reboliço na cidade. Tinha vários candidatos a pai. Mas Joana nunca falou quem era. Acho que nem ela sabia.

Uma mão fria apertou o peito de Marlise, enquanto ela imaginava André sozinho em casa, três dias seguidos, esperando a mãe voltar.

— Quando foi isso?

— Acho que no final do ano passado. — Ela olhou para cima. — Sim, isso. Eu lembro que foi no final do ano no colégio.

— E quem cuida dele?

— Ninguém. Bem, o pessoal do abrigo na Prefeitura. Casa de passagem, acho que é assim que eles chamam, não é? Ele é quieto, mas bonzinho. Dá um aperto no coração. Quem larga uma criança assim?

— Ele não tem nenhum parente?

— Não que se conheça.

Marlise agradeceu e foi para casa.

Começou a chorar no caminho e somente parou em meio ao banho.

Ela estava esperando na saída do colégio. André foi um dos últimos a sair. Não falava com ninguém. O andar vagaroso e a cabeça baixa, como se estivesse perdido em seus pensamentos. Ela o chamou três vezes antes de ele perceber que alguém lhe falava.

— André? Oi.

Ele claramente não entendia o que ela estava fazendo ali. Parou com as mãos segurando as alças da mochila.

— Oi. Tu não apareceu mais no zoológico. Fiquei preocupada. Vim ver se está bem. Quer tomar um sorvete?

Ele não esboçou reação. Parecia ainda não estar entendendo o que ela estava fazendo ali.

— Eu falei com o Murilo, do abrigo. Ele me deu permissão para te pegar na escola. Está tudo bem. Quer vir comigo?

Na verdade, conseguir aquela permissão tinha sido bem mais fácil do que ela havia imaginado. O abrigo estava cheio de crianças menores e com pouca gente para cuidar, conforme Murilo havia se queixado. Eles não tinham tempo para as crianças maiores, o que explicava a liberdade de André. Ela fez um sinal e eles começaram a andar lado a lado pela rua. A sorveteria ficava a apenas duas quadras de distância. Não falaram nada até lá. Ela tentou puxar assunto sobre a escola e sobre o clima, mas ele havia retornado ao modo monossilábico-genérico. Somente quando ele chegou na metade do copo de vaca preta, entrou no assunto.

— André. Os cervos, ou melhor, as renas. Você tem certeza que elas são do Papai Noel?

Ele a olhou sério por sobre o copo. Pensou antes de responder.

— São. Claro que são.

— Você disse que o Papai Noel não veio no ano passado. Por que você acha isso?

— Ele não me trouxe o que eu pedi.

— E o que era?

Ele se recostou na cadeira.

— Não posso falar. Se falar, não vai acontecer.

— Não, isso é com o pedido de aniversário. Aquele que a gente faz antes da vela. E também com aquele que a gente faz quando vê uma estrela cadente. Pedido para o Papai Noel não funciona assim. Pode falar que não tem problema.

Ele estava em dúvida. Ela se inclinou para a frente e insistiu.

— Olha — fez um sinal para que ele chegasse mais perto —, eu tenho a chave do viveiro. — Colocou o molho de chaves da sua casa na mesa. — Eu posso abrir para as renas saírem, mas tenho que saber se vale a pena eu me arriscar.

Os olhos dele brilharam para as chaves. Ele a encarou, ainda, com uma ponta de dúvida, mas o entusiasmo foi maior.

— Minha mãe. Eu quero que ele traga a minha mãe de volta.

Uma vez por semana, ao menos, ela o pegava na saída da escola e passavam algumas horas juntos. Depois, começaram a ficar um dia por final de semana. Nunca conversavam muito, embora ele agora comentasse algumas coisas do seu dia e até mesmo contasse coisas da sua vida anterior ao abrigo.

Marlise fez tudo o que podia para achar a mãe de André. Vasculhou as redes sociais. Divulgou anúncios pagos. Contratou sites de busca que prometiam encontrar qualquer pessoa que usasse a Internet. Falou com a polícia. Nenhuma pista. Ela havia sumido no mundo. A delegada comentou que acreditam, inclusive, que pudesse estar morta. Talvez, pensou, aquilo fosse melhor. Pelo menos André não carregaria todos os dias, a cada segundo, o peso de ter sido abandonado daquela forma. Mas sequer esse alívio poderia dar a ele. E o Natal se aproximava. Ela queria desesperadamente fazer algo por aquele menino, mas não sabia o quê.

Repetidas vezes, quando estavam juntos, ele perguntava se ela soltaria as renas. Ela dizia que ainda estava pensando. Inventava desculpas. Mas nunca negou que o faria.

Marlise conseguiu, com facilidade, a permissão para que André passasse a véspera e o dia de Natal com ela. No início da noite ele estava claramente ansioso.

— Você vai soltar as renas? Tem que dar tempo de levar o pedido de todos. Quando vai ser?

Ela fez a cara mais séria que conseguiu. Sua voz saiu grave.

— Eu vou lhe contar uma coisa, mas você deve me prometer que não contará para ninguém. Ninguém mesmo. Promete?

— Sim. Claro.

— Eu já soltei as renas.

— Soltou? Soltou! Mesmo?

— Mesmo. Que ir lá ver?

— Quero!

André se agarrava na corrente que separava o público da tela do viveiro. Lá dentro, nada. Os cervos tinham partido.

Marlise tinha inventado uma infestação de carrapatos e solicitou uma dedetização no viveiro. Os cervos foram removidos provisoriamente para uma fazenda próxima à cidade. O Prefeito não ficou muito feliz com os custos, mas ela ameaçou que a praga poderia se espalhar para os outros viveiros e jaulas. E entregou um relatório escrito, repassando a responsabilidade pelo risco para quem fosse decidir. Tinha aprendido que aquilo funcionava maravilhosamente na administração pública.

André voltou-se para ela. Sorria largamente. O primeiro sorriso verdadeiro que via naquele rosto. Os olhos estreitavam-se, pressionados pelas grandes bochechas.

— Vamos! — E saiu andando, na frente dela, de volta para a casa.

Ela havia se esmerado na decoração do pequeno apartamento, tentando deixá-lo um pouco mais aconchegante. Retirar o que ela notava agora ser a frieza objetiva da casa de uma mulher sozinha. A árvore iluminada no canto da sala tinha vários presentes embaixo, todos para ele. Ao contrário de outras crianças, ele não demonstrava grande interesse pelos pacotes. Seu interesse estava na rua. Volta e meia, ia até a janela e perdia-se olhando para a rua e para o céu. Depois de comerem, ele começou a bocejar, mas a ansiedade não permitia que se entregasse ao sono. E a meia-noite chegou. Ela o tirou da janela. Sentaram no chão. Ela lhe deu cada um dos presentes. Ele abria, agradecia, tinha um instante de felicidade e então seu olhar voltava para a janela.

— Não gostou deste? — Ela segurava o carrinho com controle remoto. Aquele era o melhor presente. Era a maior aposta dela para animá-lo.

— Gostei. — Deu uma pausa e olhou para fora de novo. — Mas não foi isso o que pedi.

Aquilo não daria certo, ela percebeu. Afastou as suas dúvidas e resolveu apelar para o plano B.

— Olha ali! Tem um mais um envelope na árvore.

Ele se levantou e pegou. O nome dele estava escrito com letras enormes e floreadas. Abriu, mas ainda estava aprendendo a ler e a caligrafia dourada e rebuscada não ajudavam.

— Lê para mim?

— Claro. — Ela pegou o envelope. — Olha, é do Papai Noel! —Ela tossiu para limpar a garganta, e fez um tom grosso com a voz. — “Querido André! Obrigado por soltar as minhas renas. Você sabe como foi difícil entregar os presentes no Natal passado! Você fez feliz o Natal de muitas crianças! Eu recebi o seu pedido, mas, infelizmente, não posso dar pessoas de presente. Já pensou como seria? Não teria renas suficiente para levar todo mundo! Uma loucura. Mas um elfo me falou que a sua mãe lhe ama muito e pensa em você todos os dias. Para que não fique muito triste, enquanto ela não pode voltar, eu pedi para a Marlise cuidar de você. Eu sei, eu sei. Ela não é sua mãe. Mas vai amar você como se fosse. E, assim, pelo menos, você terá mais alguém para esperar contigo. Esperar junto é melhor do que esperar separado, não é? Um beijo, continue se comportando e sendo esse garoto maravilhoso.”

André pegou a carta da mão de Marlise e a aproximou do rosto, como se pudesse lê-la para confirmar o que estava ali. Depois, voltou à janela. Passou vários minutos ali, chorando. Ela o deixou quieto. Não havia mais nada que pudesse fazer.

E então ele voltou para o meio da sala. Pegou Marlise pela mão e levou-a até o sofá. Sem pedir, sentou-se no colo dela.

E continuou chorando até dormir.

Aninhado no peito dela.

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