Até onde é válido ilustrar um livro? - NoSet
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Até onde é válido ilustrar um livro?

Ultimamente tenho lido muitos livros infantis. O motivo? Meus dois filhos que, influenciados por mim e pela mãe, adquiriram o hábito da leitura. Mas as obras infantis são muito diferentes das voltadas ao público adulto. Um livro para crianças é leve – não é regra – e ilustrado para acrescentar o visual à imaginação dos pequeninos. Acreditem, este é um recurso válido. Por meio das imagens (algumas primorosas e artisticamente perfeitas) há uma maior fixação da história na mente infantil. Na verdade eu concluo que elas ajudam até mesmo o adulto a fixar melhor um conto, poema ou romance.

Entretanto, talvez por preconceito ou apenas por uma vontade em deixar o livro mais “sério”, não temos mais obras de vulto – seja em vendas ou como publicações de influência – que ostentem ilustrações. Algumas exceções existem, porém a proporção de livros adultos ilustrados e não ilustrados é muito desproporcional.

Será que, após as constatações acima, o público prefere livros sem qualquer ilustração? Sinceramente, creio que não é o caso. Imposições de mercado, modismo ou qualquer outro fator, inclusive decisão do autor, transformaram os livros ilustrados em peças incomuns no meio literário voltado aos adultos.

O leitor, ávido por respostas, questiona para conseguir sua solução: “não é lógico imaginar que um livro com ilustração ficará mais caro para o consumidor, o leitor?”. Honestamente, tenho como firme convicção que as ilustrações podem até encarecer um pouco o produto, mas também servem para atrair leitores de outras faixas etárias, apreciadores das ilustrações e até mesmo os que acham que ler com o acréscimo de imagens facilita a leitura.

Não sei precisar quando se tornou comum publicar sem ilustrar, porém sei citar grandes obras que só ganharam vulto com a inclusão de desenhos, pinturas ou imagens em seu conteúdo. Livros como “A Divina Comédia”, “Alice no país das maravilhas”, muitos livros de Monteiro Lobato, “Don Quixote”, “Fábulas” – de La Fontaine, “O homem que calculava”, “O livro do cemitério”, “A batalha do Apocalipse”, entre outros. Ainda posso citar os livros que receberam fotografias, pinturas e esboços. Todas essas obras venderam muito bem e não houve polêmica sobre as imagens, como, por exemplo, “a ilustração diminui ou atrapalha a criação, a imaginação do leitor, forçando-o a interiorizar uma visão pré-estabelecida”. É ilógico afirmar que algumas imagens referentes a uma obra irão manipular a imaginação do leitor, fazendo-o diminuir o processo criativo ao se proceder a leitura. Afirmar isso, indubitavelmente, seria o mesmo que criticar um filme inspirado em uma obra literária, onde as imagens da película se tornariam tão intensamente armazenadas na mente do espectador que, em pouco tempo, seriam a única fonte de referência de quem viu o filme primeiro para, posteriormente, ler o livro. Ver a trilogia de “O Senhor dos Anéis” não implica em descartar todas as descrições, passagens e características dos personagens de Tolkien. Por mais elaborada que seja a transposição do livro para o filme, os dois podem viver conjuntamente e em harmonia, complementando-se sem que seja necessário haver o choque de versões.

Ainda devo relembrar que estamos em um período onde o visual é vital para a propagação de um produto e, nesse caso, o livro é o produto em questão. A arte por meio de fotos, ilustrações, design, esboços ou outro tipo de imagem é um atrativo a mais na publicação. Um produto que se adeque às necessidades da geração atual, mesmo limitado pela ausência de áudio, irá vender mais, será melhor aceito pelos consumidores.

Por fim, fecho este texto ao relembrar que para toda regra há uma exceção. “As crônicas de gelo e fogo” é um sucesso editorial. As vendas são infinitamente maiores que as esperadas e a repercussão dos livros, da carreira do autor e da trama em si transpõem o campo literário e vão até as redes sociais. Tudo isso, sem dúvidas, sem o uso de imagens – excetuando-se mapas – nos livros já publicados (já há versões ilustradas). Drácula de Bram Stoker também vendeu muito sem ilustrações. Quase todos os livros de Stephen King foram lançados isentos de imagens, ainda que as adaptações para cinema e quadrinhos não sejam algo incomum.

Ler um livro é algo incentivador, capaz de nos trazer de volta o prazer de imaginar, pensar e refletir. Todas as atribuições anteriores são frutos do conteúdo da obra e podem ganhar novos contornos ao acrescentarmos imagens elaboradas com base naquilo que o escritor idealizou. Imaginar é um ato vasto e infinito, capaz de transformar uma figura estática em algo com vida, movimento.

Que voltem as figuras, desenhos, sketchs, rascunhos, esboços, fotos ou como quer que os chamem. O importante é saber que não nos limitaremos jamais pela presença deles. Acredito que a ausência de ilustrações é uma ferramenta válida para incentivar a imaginação e a criatividade do leitor.  Usemos todas as ferramentas possíveis para incentivar a venda de livros, a interiorização do hábito de ler e também o prazer em divulgar e incentivar o aprendizado.

Uma imagem vale mais do que mil palavras, porém ela irá valer por um milhão de palavras caso esteja vinculada a um texto de mil palavras.

P.S.: minhas duas últimas leituras foram ainda mais prazerosas em função das ilustrações. Li recentemente os livros “Frankenstein” e “A Hora do Lobisomem”, respectivamente de Mary Shelley e Stephen King, cujo resultado final ganhou muito em qualidade por conta da união da escrita primorosa com as ilustrações magníficas de Bernie Wrightson.

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