As Memórias de Ninny – “Tomates Verdes Fritos” - NoSet
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As Memórias de Ninny – “Tomates Verdes Fritos”

 

Do que um livro chamado “Tomates Verdes Fritos” falaria? De comida, talvez? Comida até tem sua importância nessa narrativa, mas o que vem junto a ela é o que mais importa para Ninny, Evelyn, Idge, Ruth e cia!

Evelyn é uma mulher por volta dos 48 anos, já com os filhos crescidos e sem muita expectativa do que fazer na vida agora. Todo os domingos ela precisava ir até a casa de repouso onde sua sogra vivia, mas elas não tinham assunto nenhum, mal se suportavam, então Evelyn ia para a varanda.

Em uma dessas idas acabou encontrando uma senhorinha que chegara há pouco, Ninny Threadgoode, que gostava muito de conversar. Ela aproveitou o par de ouvidos de Evelyn, que não falava nada, e começou a contar as histórias do Café da Parada do Apito, lá da década de 1930.

Ninny foi recebida pelos Threadgoode muito antes de casar com o filho mais velho da família, Cleo. Ela perdeu os pais ainda muito nova e esta família a acolheu como se fosse uma das filhas. À propósito, eram nove filhos ao todos, todos com um coração enorme e uma habilidade incrível de evitar a palavra “não”.

Tudo aconteceu na Parada do Apito, cidade vizinha a grande Birmingham, e famosa pelo parque ferroviário, pelos sem tetos e pelo Café de Idge e Ruth.

Idge era a filha mais nova dos Treadgoode, sempre apontada como sendo a mais selvagem, desde nova decidiu que não usaria vestido como as outras meninas. Ela tinha um afeto muito grande por Buddy, o menino mais novo e que a mimava um pouco, mas que também foi a primeira perda que Idge sofreu na vida.

Ruth só chegou na Parada do Apito anos depois, quando Idge já tinha seus 16 anos. Ela vinha da Georgia que passou o verão da casa dos Threadgoode para uma missão da igreja, mas conseguiu mais do que isso. Aos poucos a família viu que a única pessoa que conseguiu botar limites em Idge, ela era a kryptonita da encantadora de abelhas (certa vez Idge a mostrou que conseguia dominar as abelhas).

Elas sabiam que isso não seria aceito e Ruth voltou para a sua cidade (a contragosto de Idge), onde se casou com Frank Bennet. Anos depois Idge descobriu que Ruth era agredida por Frank e chamou seus irmãos, Big George (empregado da família) e outros amigos, eles foram lá e resgataram Ruth, que pouco depois descobriu que estava grávida. Idge se tornou responsável por Ruth e pelo bebê, por isso seu pai lhe ajudou a construir o Café.

No Café elas recebiam a ajuda de Sipsey, eterna empregada da família, famosa pelas deliciosas receitas e pelo carinho que cuidava dos Threadgoode, de Big George, filho de Sipsey e responsável pelo churrasco, e de Onzell, esposa de Big George.

Lá a depressão do Entre-Guerras se passou como um paradoxo, muita gente necessitada, muita segregação racial, incluindo a atuação do KKK, mas dentro do Café havia alegria e descontração. Idge não negava nada a ninguém, desafiava as leis racistas e vendia comida aos negros, enfrentou o quer que fosse para manter sua família e proteger seus amigos.

Ninny se lembrou disso mesmo depois de tantos anos, de tantas perdas. Naquela casa de repouso ela não tinha a comida que tanto gostava, mas não era amargurada, era feliz por ter tido a oportunidade de viver tudo aquilo. Ao relatar seus memórias, mesmo que despretensiosamente, a Evelyn esta passou a sentir de verdade, a saber que ela poderia ter uma voz e uma vida.

A narração de Ninny ocorrem ao longo do ano de 1986 e é linear, toda semana Evelyn tinha uma conversa com ela, sempre ela trazia uma comida diferente, um doce ou algo nostálgico para alegrar aquela senhorinha estava mudando a sua vida. As histórias do Café, da família Threadgoode e de seus agregados não, dependia muito do que Ninny estava lembrando naquele dia.

Há tantas coisas interessantes nesse livro que eu nem sei por onde começar!

São duas estranhas dentro de um ambiente que nenhuma das duas gostam, mas que uma acaba ajudando a outra. Evelyn são os ouvidos que Ninny precisava para falar de suas memórias e Ninny era a força que Evelyn precisava para não entrar em uma depressão severa.

A história de Idge é nada menos do que épica. Ela quebrou tantos tabus em uma época que nem se poderia pensar que uma mulher poderia fazer, sempre tendo tanto apoio de sua família. Apesar de não se falar claramente, é perceptível que Idge conseguiu, em 1930, no sul do Alabama, viver uma história de amor homossexual e com direito a um filho.

Se hoje em dia um casal formado por duas mulheres enfrentam tantos obstáculos, imaginem o que não poderia ter acontecido naquela época?!

Também enfrentou duas outras situações que ainda são muito comuns atualmente: segregação racional e agressão a mulher.

Essas duas questões podem ser resumidas ao caso Frank Bennet. Ele não ficou nada satisfeita de ter pedido a esposa, então foi até a Parada do Apito disfarçado com seu capuz do KKK (ele queria atacar começando por Big George), ficou sabendo que Ruth tinha dado a luz ao seu filho e quis pegar a criança, Sipsey (que cuidava do bebê naquela noite) jogou uma frigideira pesada na cabeça dele, causando sua morte.

A partir daí Big George, Artis (um dos gêmeos dele) e Idge tentaram encobrir esse crime, afinal negro que matasse branco naquela época iria direto para a cadeira elétrica sem julgamento algum. Vamos só dizer que a agressão a Ruth resultou em um belo churrasco com um temperinho diferente…….

Eles ficaram livres de Frank e ninguém foi preso (sem cadáver, sem crime), mas isso fez Artis crescer diferente de seus irmãos, sabendo que não devia nada porque havia ajudado a matar um branco.

Olhando para Evelyn outras questões são abordadas. Em poucos meses ela teve a revolução feminista dentro de si, anos depois de o mundo começar a conhecer o feminismo. De repente ela começou a questionar pequenos detalhes do dia a dia que denegriam a imagem feminina e passou a se revoltar quanto a isso.

Preciso relembrar: estamos falando de uma narrativa de 1986! Engraçado que em pleno 2018 ainda temos as mesmas questões para refletir e daí um pergunta: quando a sociedade evoluirá de verdade?!

O livro de Fannie Flag, conhecida pelo seu toque cômico e personagens femininas fortes, teve uma adaptação para o cinema em 1991, Evelyn foi interpretada pela polêmica Kathy Bates e Buddy, o irmão favorito de Idge, por Chris O’Donnel. Em 2007, com meus 15 anos, eu tive que assistir esse filme na aula de história, salvo me engano, porque a professora estava falando da questão racial e queria que nós entendêssemos melhor como os negros eram tratados naquela época.

Eu não prestei muita atenção no começo, mas ao ler o livro me lembrei de algumas cenas: a morte de Buddy; Idge indo buscar Ruth na Georgia; os policiais comendo o churrasco de Frank feito por Big George; a agressão que Evelyn sofreu no estacionamento do supermercado; e o momento em que Ninny falou que Evelyn seria uma excelente consultora da Mary Kay, que facilmente ela conseguiria o seu cadilac rosa.

Eu nem sabia o que era Mary Kay, hoje em dia não vivo sem minha base TimeWise matte na cor bege 4! Não entendo porque isso me emocionou, mas no momento que li esse trecho um filme passou pela minha cabeça.

Ah que arrependimento que tive ao não ter prestado a atenção necessária naquele filme, mas que felicidade foi ter lido o livro 11 anos mais velha e perceber a sua importância (obrigada Globo Livros por me notar).

Hoje estou apaixonada por Ninny e quero encomendar minha base a Evelyn, queria também ir a Parada do Apito de trem, arrumar meus cabelos no salão de Opal, passar na vendinha de Ocie, ler o Semanário Weems sobre as novidades da semana e comer tomates verdes fritos (quebraria completamente a dieta, lógico) e uma xícara de café ouvindo as histórias fantásticas de Idge e de Toco (o filho de Ruth, mas que aprendeu a contar histórias com Idge).

Ah, falando em tomates verdes fritos, o livro ainda tem quatro páginas com as receitas de Sipsey para o Café. Se você não se importar em usar a gordura do bacon, são ótimas ideias para tentar na cozinha.

Beijinhos e até mais.

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