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Altered Carbon: a série é melhor do que o livro?

Altered Carbon  [2018] foi a segunda vez que fiz o caminho inverso: primeiro assisti a série e depois li a novela da qual foi adaptada.

O lançamento foi precedido de intenso alarde publicitário pela coprodutora Netflix e chamou a minha atenção por trazer como ator principal Joel Kinnamanm. Para quem não se recorda, o sueco interpretou Stephen Holder em The Killing, a série policial cult passada em uma Seattle sempre nublada ou chuvosa.

A história se passa em Bay City (a atual San Francisco) em um futuro distante. Atenção agora. Takeshi Lev Kovacs, um “emissário”, é “reencapado” no corpo de um policial preso por corrupção, entre outros crimes. O reencapamento é custeado por Laurens Bancroft [James Purefoy], um “matusa”, que dá a Kovacs a missão de descobrir por que ele, Laurens, teria se suicidado.

Confuso?

Vou tentar explicar.

Nesse futuro, nossa personalidade, caráter e lembranças ficam armazenados em uma unidade física localizada na base da nuca, o “cartucho cortical”. Assim, quando você morre biologicamente e o cartucho é preservado, pode ser “reencapado” (ressuscitado) em outra “capa” (corpo).

A imortalidade, portanto, está ao alcance de quem pode pagar por ela. E quem pode são os “matusas” (para quem não pegou a referência, a gíria vem de Matusalém, o personagem bíblico). Uma classe que, além de rica, praticamente se tornou uma nova espécie. Alguns dos seus membros contam com mais de mil anos de idade. Vivem em palácios suspensos, em uma clara remissão à figura dos deuses gregos e, como eles, estão perdidos em lutas mesquinhas e intestinas, enquanto os humanos enfrentam as dificuldades da vida cotidiana.

Bancroft é um matusa e uma dúvida o consome. Há alguns meses, uma das suas capas morreu em casa com um tipo de feixe de raios. O cartucho cortical foi vaporizado. Isso levaria qualquer um à verdadeira morte, mas não Bancroft. Seus imensos recursos permitiam que o conteúdo do seu cartucho fosse transmitido, sincronizado e armazenado fora do seu corpo uma vez a cada dois dias. Assim, ele retorna, mas sem a lembrança dos dois dias que antecederam a morte. A polícia conclui que Bancroft se suicidou. Ele tem certeza que jamais faria isso. Um clima de desconfiança se instaura entre ele e todos os (poucos) familiares, amigos e empregados que têm acesso à casa. Para tentar solucionar o caso, Bancroft reencapa Takeshi Lev Kovacs, um militar treinado pela Corpo de Emissários, uma unidade especial que atuava em mundos distantes e que, depois, tornou-se um terrorista. Prometeu-lhe o perdão por seus crimes e uma fortuna em créditos, caso fosse bem-sucedido.

 

O “cartucho cortical”

Obviamente, evitarei spoilers e não falarei do desenrolar da trama, que é, em sua essência, um thriller policial. A originalidade, por assim dizer, de Altered Carbon está em unir conceitos de várias novelas de ficção científica. A ambientação é complexa, mas funciona de forma orgânica e harmônica. O foco nunca sai da história que está sendo contada. Não há longas dissertações sobre tecnologia ou sobre como e por qual motivo o mundo está dessa ou daquela forma. As explicações existem, por óbvio, mas fluem com o texto. E praticamente tudo está lá. Inteligência artificial, drogas, mundos virtuais, viagens interplanetárias, guerra, pobreza, crenças religiosas, derivações econômicas… a lista é extensa.

O livro Carbono Alterado (que teve o título traduzido na edição brasileira) foi lançado em 2002 e com justiça ganhou o prêmio Philip K. Dick de melhor novela no ano de 2003.

O universo construído pelo escritor Richard Morgan permite praticamente qualquer coisa. O melhor personagem da primeira temporada da série, por exemplo, é um hotel. O The Raven, onde Kovacs se hospeda, é gerido por uma inteligência artificial que emula o escritor Edgar Allan Poe. Há mundos virtuais onde você pode encontrar pessoas que estão atualmente desencapadas. Ou onde você pode pegar os dados do cartucho e jogar alguém apenas para ficar lhe torturando indefinidamente, até mesmo matá-lo, e recomeçar. Há impressoras de corpos biológicos. Há avanços em biomedicina, que incorporam novas funcionalidades aos corpos. Há a possibilidade de você reencarpar em androides. Há objeções religiosas ao reencapamento, principalmente dos cristãos. Há hacker e um clima cyberpunk. O leque é grande, foi bem aproveitado no livro e foi ainda melhor aproveitado na série.

A primeira vez que fiz o caminho inverso, começando pela série, foi com The Expanse [2015]. A temporada inaugural da série cobre cerca de metade do livro Leviathan Wakes [2011], de James S. A. Corey (pseudônimo dos verdadeiros autores, a dupla Daniel Abraham e Ty Franck). Fiquei surpreso ao constatar que a adaptação, embora tivesse algumas diferenças, em nada devia ao livro.

        Já a série Altered Carbon foi além. Ela supera o livro em vários pontos. Kovacs, por exemplo, tem um passado diferente na série. Esse background deixa-o mais vivo e verdadeiro. No livro, não há o hotel The Raven, mas sim o Hendrix. Poe, a inteligência artificial da série, tem muita influência na história e é um personagem complexo e divertido, superando o guitarrista-digital-hoteleiro do livro.

Com essas duas amostragens, cheguei à conclusão de que o velho chavão “o livro perde muito quando transposto para as telas” deve ser repensado. Uma soma de fatores concorre para isso.

O tempo disponível em uma temporada chega, com facilidade, a dez horas. Mesmo quando narrado em um audiobook, um livro de cerca de trezentas páginas não passa de dez horas. Isso permite ao roteirista e ao diretor realizarem, caso queiram, uma transposição quase literal da narrativa escrita. Se dela descontarmos, ainda, os cenários, os panos de fundo, os figurinos, os estados de espírito dos personagens, entre outros detalhes, que são transmitidos imediatamente pela imagem, nota-se que há espaço para uma liberdade criativa e para um aprofundamento da história.

       Além disso, a expansão e diversificação do mercado de séries permite que não sejam necessários “ajustes” a fim de as tornar palatáveis para o grande público. Cada obra tem o seu nicho. Preservar as suas características é essencial ao sucesso no microcosmo a que se destina.

Mais importante: há dinheiro fluindo para estas produções, pois elas, em sua grande maioria, retornam o investimento. Isso gera um círculo virtuoso, com o acréscimo constante de qualidade que temos observado nos últimos anos.

É nesse novo cenário que se insere Altered Carbon, uma obra melhor do que o (muito bom) livro da qual se origina. Uma recomendação certa para aqueles que gostam de uma história policial inserida em um contexto imaginativo de ficção científica. Sim, se você gosta de referências, é impossível não pensar em Blade Runner. Aliás, o filme não é melhor do que o conto Do Androids Dream of Electric Sheep?

 

 

 

 

 

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